O dia dos namorados e as datas festivas

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Ontem, 12 de junho, vivenciamos no Brasil mais um dia dos namorados. No resto do mundo ocidental, como se sabe, comemora-se o dia em outra data, 14 de fevereiro, dia de São Valentim, santo que dizem ter emprestado a imagem ao próprio anjo cupido. Talvez, no Brasil, devessem ter escolhido o dia de Santo Antônio, conhecido como casamenteiro. Mas, na prática, ficou mesmo para a véspera. Vai entender.

Tem até quem diga que, na verdade, a mudança da data no Brasil não tem nada a ver com Santo Antônio e sua fama de arranjar parceiros para quem queira, mas sim com uma decisão do comércio, para ter uma data para movimentar suas vendas mais para o meio do ano, período meio vazio deste tipo de festejo, e mais distante do carnaval, que em muitos anos se vê misturado à data dedicada ao cupido Valentim.

Pode até ser e me parece bastante provável. Datas festivas menos artificiais, como o Natal e a Páscoa, importantes datas das principais religiões cristãs, já foram devidamente lapidadas para servir ao deus comércio.

Eu não tenho nada contra darmos e recebermos presentes, buscarmos uma refeição diferenciada de vez em quando ou até preparar ovos usando chocolate, o que é realmente preocupante é quando, para quem presenteia ou come, o que tem importância são os valores investidos nas aquisições e não mais os valores que estas datam deveriam resgatar em nós.

É triste ver que o amor só pode ser celebrado se conseguirmos a disputada reserva naquele badalado restaurante, ou que se eu gastei tanto com seu irmão então não posso gastar menos com sua irmã – senão ela vai reparar, mesmo que o presente mais caro não tenha tanto a ver com ela, ou ainda que a gente prefira pagar preço de ouro no mesmo chocolate vendido durante o restante do ano, só porque ele endureceu em uma forma diferente. Mais triste ainda é que às vezes temos consciência disso tudo e ainda assim os tais padrões sociais nos superam e nos vemos fazendo aquilo que não acreditamos, para não sermos julgados. E quando a opinião que tenham sobre nós vale mais do que a nossa própria opinião sobre nós mesmos, já nos vendemos.

Assim sendo, vale mais curtir com o seu namorado(a) ou esposo(a), se você estiver acompanhado neste dia. Aproveite, divirta-se, brinque, dê risada, beije, faça carinhos, converse, seja feliz. E se não estiver com ninguém, aproveite também. A vida vale mais do que rótulos e ninguém tem o direito de te julgar. A felicidade não se compra mas também não se vende – e muito menos tão barato quanto a tal “sociedade”, pronta para julgar a tudo e a todos, está disposta a pagar.

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Versos do Dia: Piloto Automático (Supercombo)

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Um dia eu vou morrer, um dia eu chego lá.

E eu sei que o piloto automático, vai me levar…

Eu devia sorrir mais, abraçar os pais, viajar o mundo e socializar

Nunca reclamar, só agradecer

Tudo o que vier, eu fiz por merecer…

Fácil de falar… difícil de fazer!

Fazer é mais importante do que planejar

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No último dia 21 de maio este que vos escreve completou seus primeiros 39 anos de vida. Agora mais um ciclo e chegarei, espero, aos 40. Vou aproveitar este primeiro farelo pós-festa para passar a limpo algumas notas mentais que tem me acompanhado e que, acredito, são bem sintetizadas no título deste 171 de hoje: fazer é mais importante do que planejar. Mas, antes mesmo de começar, já vale um lembrete de que, de maneira alguma, estou desmerecendo os planos, pelo contrário, considero-os essenciais. Mas eles, de forma alguma, garantem a sua própria execução e, tampouco, uma execução adequada e satisfatória, como sempre se espera. Mas, planos perfeitos que ficam no papel ainda são menos desejáveis do que planos feitos às pressas, corridos, incompletos… mas que são experimentados, vividos, realizados.

Se este relato se escora no dia específico em que completei 39 anos de idade, cabe dizer que foi em grande estilo. Acordei com um abraço coletivo e desejos de parabéns de minha família e amigos, representados respectivamente pela minha esposa e por um casal de amigos brasileiros radicados na Europa já há mais de uma década, além de seus dois filhos encantadores. Foi em Strasbourg, de lá viajamos para Reims, na região de Champagne, também na França. Viajar no dia do meu aniversário, acho que combina comigo.

Já em Reims, almoçamos em um restaurante de alta gastronomia, nem acho que combina tanto comigo, mas a gente tava a fim de experimentar para ver qual era. Acabamos preferindo a comida de um outro bom restaurante que havíamos ido meio que por acaso e adoramos, na mesma semana, porém ainda assim valeu a pena, pelo requinte, pelo atendimento, pelas várias sessões de provas, texturas e sabores. Não foi instigante, mas foi curioso. Continuando a comemoração gastronômica e turística, fomos visitar a casa de champagne Mumm, que até recentemente era a garrafa estourada pelos vencedores dos GPs de Fórmula 1. Passeio super interessante, depois conto mais em um farelo só sobre a viagem.

Para coroar o dia do aniversário, teve ainda música e cinema. Música pois da Mumm fomos diretamente ao festival La Magnifique Society para ver Camille, simplesmente a minha artista favorita em termos de apresentação ao vivo. Show da nova turnê, do álbum ainda não lançado “Oui”. Bastante diferente do anterior “Ilo Veyou”, mas igualmente intenso, surpreendente e cativante. Tanto que até hoje estou cantarolando músicas que só ouvi, até aqui, ao vivo durante os shows.

Eu disse antes que também teve cinema e este foi mais um presente. Um dos meus seriados favoritos, o finado Twin Peaks, obra de um dos meus diretores favoritos, David Lynch, em parceria com Mark Frost e que marcou e transformou a TV americana no início dos anos 90, foi retomado, profeticamente 25 anos depois. A data do primeiro episódio da retomada? 21 de maio de 2017. Obrigado aos realizadores, só hoje, uma semana depois, pude ver os dois primeiros episódios, mas ainda assim sinto-me grato pela coincidência.

É evidente que para ter vivido o que eu posso chamar de um dia perfeito exigiu planejamento. Começou por seguir uma ideia inicialmente maluca, sussurrada há poucos meses atrás pela minha esposa. Enquanto montávamos roteiros e alternativas para as nossas férias, que cobririam o dia do meu aniversário, ela sabendo que eu gosto muito de música ao vivo e da Camille, disse: “veja se não tem um show da Camille durante as férias em algum lugar”. Calhou de ter e não apenas durante as férias mas exatamente no dia, foi então que decidirmos ir e planejamos as férias em torno disso. Mas não só planejamos, nos preparamos, investimos e vivenciamos. E foi inesquecível. Começou como uma ideia, terminou como um sonho se transformando em realidade, com aquele tecido próprio que os sonhos tem, mas com o brilho nos nossos olhos que só a vida vivida pode proporcionar.

Agora estou de volta, cheio de energia, renovado, sonhando com tantas outras coisas, com tantos outros planos na cabeça e alguns até no papel. E muitos destes sonhos tem a ver com este espaço, tanta coisa que planejo e não faço. E isso é algo que eu realmente quero que seja diferente, como algo a ser feito ainda durante este próximo ano. Quero ver o meu projeto de vídeos nascer, quero dar sequencia nas entrevistas de pessoas que tenham algo a dizer, quero falar mais de coisas relacionadas a minha atividade profissional, quero esfarelar mais sobre música, cinema, TV e esportes. Quero dar muito mais dicas de viagem – e acho que posso realmente ajudar outras pessoas com isso. Quero até falar mais de política e filosofia. Enfim, este é o meu espaço, o meu diário, o meu catálogo, onde registro as coisas que são importantes ou interessantes para mim. E fazer isso com mais tempo dedicado, com mais entrega, com mais paixão, com mais intensidade, será o meu presente para mim mesmo. Por mais farelos, feliz aniversário.

O que impulsiona

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O que nos faz seguir adiante? Um motor a combustão, os pedais de nossa bike, o galope rápido de nossas montarias, a força obstinada de nossos passos?

O que nos fazer seguir em frente? Uma paixão arrebatadora, um abraço que nos aguarda ao final do dia, o calor fraternal de um encontro com amigos ou o frio invernal de querer o mal?

O que nos faz seguir? Amor, rancor, sonhos, ódio, prazer, inveja, realização, obrigação?

O que nos faz? As experiências, o conhecimento, a percepção de nossa existência, as multiplas culturas? Nada de mais?

O que? São so farelos e a capacidade de sonhar.

Versos do dia: Melhor da Vida (Jeneci)

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O que vale nessa vida é ver como você aproveita
Desde a hora que levanta até a hora que deita
Quando escolhe a coisa certa é tudo sem receita
Quando perto de você a própria confusão se ajeita bem
E me vem que a vida vale mil
Mil vezes sou nós dois
Mil meses de amor
Antes de ter prorrogação
Se a vida é por um fio
Valeu pra quem já viu
Seu jeito de tocar no coração
E nas noites que o tempo para e você me abraça
Sinto que o melhor da vida sempre vem de graça

Frustrações são causadas por expectativas?

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É certo que sempre que estou frustrado, é porque imaginei algo que a realidade provou diferente. É o sentimento de ver um desejo não ser realizado. Caberá, no entanto, colocar a imaginação ou o desejo como culpados pelas frustrações? Existe a expectativa não correspondida, mas o que é pior, a existência da expectativa ou o fato de ela não ter sido atendida?

Ora, parece-me claro que toda frustração traz dentro de si a semente para uma realização. Se ainda não germinou, frustra-se, mas será que ainda não vale continuar regando? Será que o tempo ainda não vai ficar mais favorável para que o verde apareça? Será que uma continuidade, uma perseverança, não poderiam transformar limão em limonada, arrependimento em sucesso, fracasso em resultado positivo?

Acredito que por vezes sim e por vezes não e nunca é possível antecipar qual delas estamos vivenciando. Insistir eternamente pode ser pior do que frustrar-se pontualmente e forçar-se a mover-se para frente. Tudo depende, a meu ver, do valor que se dá à semente e do quanto queremos saborear o fruto futuro ou desfrutar da sombra da vindoura árvore. De acordo com o tamanho do sonho, mede-se o tamanho do desafio e do empenho a ser dedicado para alcançá-lo.

Eu tenho amor ao debate. Realmente gosto de entrar em discussões com pontos de vista conflitantes, defender os meus e aprender com os dos demais. Tenho comigo que é sempre importante entrar nessas disputas disposto a modificar completamente a sua visão de mundo, e para isso devo estar atento aos argumentos e não a quem os diz. Da mesma forma, espero conseguir ter clareza ao expor os meus e tenho expectativa de que seja ouvido pelas ideias que aporto e não pelas que um dia já aportei ou aportarei. O ser humano é rico em contradições e ser uma pedra imutável não é virtude. Prefiro ser essa metamorfose ambulante.

 

Apesar de adorar viver novas experiências e de saber que boa parte delas tem um custo material para ser realizada (como foi a ida ao Kilimanjaro no ano passado e como será a ida ao campo base do Everest neste ano) eu já me conheço o suficiente para saber que vivo bem com pouco, que meus valores vão além do valor da conta do restaurante ou do carro que tenho na garagem ou ainda da metragem de minha residência, seja ela própria ou alugada. Nada disso importa muito. Dou mais valor às pessoas com quem me relaciono e na qualidade dessas relações, onde busco sempre ser honesto e sincero. Dou valor ao meu ukulele e os três acordes que já sei fazer. Dou mais valor a este meu blog onde posso expor minhas ideias. Dou mais valor aos seriados e filmes que gosto de assistir e que me divertem ao mesmo tempo que me estimulam. Aos meus livros e HQs que nem tenho mais onde guardar – para desespero da minha esposa.

Neste 171, para ligar os dois tempos do texto nesta pequena prorrogação, preciso apenas dizer que há um grande empenho de minha parte em transformar, via debate, uma realidade antiga. Batalhas tem sido ganhas, aos poucos, lentamente. Mas a guerra ainda não tem prognóstico. E isso poderá ser uma grande frustração. Valerá continuar regando?

Um jogo sem tabuleiro

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Sou um fã de Star Wars. Adoro jogos de tabuleiro. É óbvio portanto que me empolguei com o jogo X-Wing, que nos coloca como pilotos de espaçonaves da Rebelião ou do Império, podendo comandar X-Wings, Tie Fighters ou mesmo a fantástica sucata voadora Millenium Falcon. Tem vários videos no Youtube explicando como o jogo funciona, segue um deles como referência.

Pois bem, uma coisa que encontrei fascinante neste jogo é justamente o fato de podermos usar o espaço com liberdade. Não há um tabuleiro fixo, com casas pré-determinando onde o espaço pode ser ocupado. Podemos ir e vir, avançar ou recuar. Quando experimentei jogar pela primeira vez, a minha mesa redonda de 1,20×1,20m foi o espaço sideral durante algumas horas e a missão, plenamente cumprida, de destruir o Império, desviar de meteoros, posicionar a mira e atacar o inimigo ocorreu de forma que eu nunca havia experimentado em jogos de tabuleiro – justamente porque não há um tabuleiro.

Como é de se esperar neste espaço, o texto aqui não é apenas sobre X-Wings soltando raios de laser em direção a Tie Fighters batendo em retiradas, nem sobre as habilidades de renomados pilotos como Luke Skywalker, Han Solo ou Darth Vader. O ponto que me faz transformar a experiência de ter jogado com os amigos em mais um farelo é justamente a reflexão de como a liberdade e as regras mais soltas quanto a movimentação, quase que um livre-arbítrio da jogatina, transformaram a experiência do jogo em algo mais. Ao não impor direção ou espaços possíveis de deslocamentos e fazer com que as decisões de um afetem imediatamente e de forma irreversível a decisão já tomada pelo outro a dinâmica do jogo torna-se mais imprevisível e excitante.

 

Não é sempre assim? Não estamos sempre prontos para ocupar qualquer espaço em nossas próprias vidas, ainda que em boa parte dela a gente se atenha a regras pré-estabelecidas – muitas vezes por outras pessoas ou pela sociedade na qual vivemos? Com um pouco mais do espírito rebelde podemos correr mais riscos, ter mais atitude, ocupar novos espaços, movimentar-nos com mais liberdade, dizer mais o que realmente pensamos, mirar melhor e destruir as estrelas da morte que sempre cruzam nossos caminhos.

Podemos também, em contrapartida, nos atermos aos tabuleiros que por vezes a vida nos impõe. Ficamos no mesmo emprego ainda que já tenhamos perdido o tesão pelo trabalho. Mantemos a mesma rotina ainda que ela já não nos motive a levantar da cama. Mantemos relacionamentos que já não fazem bem. Jogamos os mesmos dados viciados, esperando por outros resultados ou por alguém que chegue e mude a cara do jogo que estamos jogando, sem interesse, antes que a partida acabe e a gente tenha perdido. Este jogo e este tabuleiro são muito traiçoeiros e é importante lermos com clareza as regras para descobrirmos o óbvio: não há tabuleiros e somos jogadores muito mais poderosos e versáteis do que imaginamos. Não podemos é jogar este jogo de olhos vendados e tropeçar pelo tabuleiro inexistente.

Assim como no jogo de miniaturas, quero fazer com que minhas naves cruzem as fronteiras espaciais, passe por cinturões de asteroides e coloque minhas habilidades como piloto à prova, para que assim eu tente cumprir com a missão da minha vida. Aqui, nesta galáxia muito distante… e sem tabuleiros para me guiar.

Reencontro

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Há um encontro. A primeira vez em que se encontra alguém, quando aquelas duas identidades se fazem presentes no mesmo momento e ocupando espaços próximos que permitam contato, interação. E há o reencontro, que se dá quando já houve um encontro, seguido de uma separação no tempo e no espaço e, depois, culminando em outro instante em que novamente se põem lado a lado, frente a frente, ou em qualquer outra distância e posições que sejam.

Por mais que o parágrafo anterior seja aplicável a qualquer relacionamento em nossas vidas, afinal reencontramos nossos companheiros, amigos, familiares, colegas e até desconhecidos – o atendente da padaria ou o cobrador do ônibus, eu quero falar de um tipo bem particular de reencontros: com os nossos artistas musicais favoritos. Na semana passada eu publiquei um farelo musical sobre minhas impressões do Lollapalooza… mas foi lá, ao reencontrar Céu, que essa reflexão tão recorrente me veio a mente.

Na primeira vez que eu vi a Céu, eu estava namorando com a Gi mas ela não me acompanhou ao show, pois a Maiara, sobrinha dela, estava na maternidade. Fui com o Guilherme, amigo das antigas e colega de trabalho. Foi no Cine Jóia, pequena casa de espetáculos aqui em São Paulo. Eu queria muito ver um show da Céu e tinha ido ver Criolo, neste mesmo lugar, uma semana antes, também com o Gui – e tinha sido ótimo, apesar de problemas de acústica. Ali foi o repertório clássico, de uma artista já estabelecida mas com apenas três álbuns de estúdio lançados. Para um fissurado, não faltavam emoções ao compartilhar com o artista a nossa admiração pela sua obra. E cantar junto, sim. Desafinado, sim. O que vale ali é admirar e sentir, mas também compartilhar o momento.

Algumas semanas depois, eu reencontrei a Céu, mas agora acompanhado pela Gi – e pela Cachinhos, para ouvir o concerto de Catch a Fire, álbum clássico de Bob Marley revisitado, na íntegra, por ela. Foi lindo e foi diferente. Pela companhia, pelo ambiente, pelas músicas, pela atmosfera.

No Parque do Ibirapuera, um ano depois, fomos mais para ouvir ZAZ, cantora francesa, mas também ouvimos, ao chegar e à distância, o final do concerto da Céu. De novo com a Gi e a Cachinhos, mas agora com um grupo ainda maior de amigos e com direito a piquenique no gramado do parque. Nem cheguei a ver a Céu, mas ouvi de longe e não deixou de ser mais um reencontro.

Eu me casei com a Gi e mudei de Campinas para Osasco em 2015. Em 2016 a Céu lançou álbum novo, Tropix. A Maiara já me chama de Tio Paulo e vai fazer 4 anos. O Guilherme continua trabalhando comigo e é um ótimo amigo, bem como vários outros que vamos mantendo e acumulando com o passar dos anos.

Desta forma chegamos ao Lollapalooza de 2017, a mais um reencontro. Eu não sou o mesmo e nem é a Céu, tocando muita coisa nova, do Tropix, que eu nem ouvi tanto assim. E dando roupagem novas para as que eu já conhecia, pois reinventar-se é bom e eu gosto. Artista inquieto é quase que um pleonasmo. Quando se dá o reencontro, em geral, eu tento pensar nisso, no quanto não dá para “ouvir de novo o concerto da Céu”. É sempre algo novo, muda-se o espaço, muda-se o tempo, muda-se quem nós somos. Muda-se o criador, muda-se a obra e também muda-se o observador. As nuvens são sempre outras e mesmo o céu já mudou. Cada encontro, uma história.

A Gi perguntou se eu daria outra chance para os Strokes. Ali foi nosso primeiro encontro – e foi uma decepção. Mas eu talvez desse uma chance de reencontro, dependendo das circunstâncias. System of a Down foi apenas um encontro e eu anseio por outra oportunidade. Vai ser ótimo reencontrar Camille em breve, em maio, e a expectativa pelo encontro com os Tindersticks já me deixa ansioso…

Nunca se entra no mesmo rio duas vezes… nunca se lê o mesmo livro duas vezes… nunca se vê o mesmo filme duas vezes…. não há reencontro igual.

Impressões do Lollapalooza 2017

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Apesar de ter ido aos dois dias do festival, eu assisti poucos concertos.

No sábado, tinha compromissos pessoais e só consegui ir ao Metallica, última atração do dia. E como valeu a pena. Gosto de rock mais pesado e sou admirador da banda desde meados dos anos 90, quando ouvi Fade To Black pela primeira vez, pela MTV, era o clipe abaixo, um extrato de um show da banda em Moscou em 1991.

Ela fazia parte do set list de sábado juntamente com outras clássicas como For Whom The Bell Tolls, Master of Puppets, Nothing Else Matters e a “mais recente” The Unforgiven. Porém, a maior parte do repertório cobriu músicas do álbum do ano passado, Hardwired… to Self-Destruct. Não estou mais acompanhando a discografia da banda mas posso dizer que a decisão foi acertada. As músicas mantiveram sempre uma energia contagiante, o público abraçou a banda e a renovação do público da banda – as pessoas que vão ao festival são de todos os tipos e gerações – é certeira. Valeu demais a pena, Hetfield ainda consegue manter o pique, Lars detona na bateria e as guitarras de Kirk Hammett são uma das melhores que ainda sobrevivem no rock surgido nos anos 80.

Hetfield ainda teve a sagacidade de fazer um belo discurso de inclusão ao dizer “Não importa qual artista você veio ver hoje, agora você está aqui e queremos agradecê-los e recebê-los de braços abertos para fazer parte de nossa família”. Também mostrando-se emocionado por estar na estrada há 36 anos, garantindo que para eles a motivação e entrega continuam especiais. Para nós também, James. Foi o ponto alto do festival para mim.

No domingo, cheguei cedo para curtir o dia do evento e também para ver o concerto da Céu, que estava previsto para bem cedo, as 13h15. Perdi só a primeira música, o show estava no Palco Ônix… a caminhada até lá é intensa. Fazia já quase três anos que eu não via Céu ao vivo, de lá para cá ela também teve álbum novo, mas houve também surpresas com novos arranjos para algumas das canções mais antigas, como Malemolência e Cangote. Sou fã. Só o figurino e a maquiagem que não estavam adequados para o calor das 13h e combinariam mais com uma apresentação noturna pós-apocalíptica em um pub cheio de fumaça e gente estranha.

Depois fui dar uma olhada geral nas coisas do Festival: o estande dos chefs e suas comidinhas, o espaço de lojas (tinha de gente lendo seu futuro no tarô a venda de meias coloridas), as ideias marketeiras dos estandes dos patrocinadores e o que o festival oferecia por todos os lados: muitas filas para consumir comidas e bebidas. O pagamento, com a pulseira high-tech que serve de entrada e moeda, foi facilitado, mas o atraso se dá, ao menos no caso da comida, muito mais na preparação. No meu caso, por exemplo, paguei um sanduíche de picanha rapidamente, mas tive que esperar quase 30 minutos para poder comê-lo.

Um pouco mais tarde, as 16h, assisti Silversun Pickups. A banda americana estava a vontade e com bom público no palco Axe, que é o único em solo pedregoso que atrapalha um pouco a experiência. Curti bastante o show mas achei a banda um pouco repetitiva, tanto no repertório quanto na condução do frontman Brian Aubert. Foi a primeira vez da banda tanto no Brasil quanto na América do Sul. Teve momentos em que eles conseguiram levantar o bom público que estava lá para conferir o som, mas a maior parte do concerto foi mais de apreciação técnica do que de empolgação.

No mesmo palco, vi o começo do concerto da dinamarquesa M0 e fiquei bem impressionado, mas já era hora de me deslocar para ver o que seria The Weekn’d, que era uma das principais atrações mas que estava fora do meu radar. Ouvi pouco mais do que duas músicas e resolvi mantê-lo fora do meu radar, já me dirigindo para o palco onde mais tarde os Strokes se apresentariam.

Strokes e Céu, na verdade, foram as atrações que me fizeram comprar os dois dias de festival. Valeu mais pela Céu. O concerto dos Strokes, que já foram considerados, exageradamente, uma revolução no rock no início dos anos 2000, com seus vários e grudentos hits como Last Nite, SomaReptilia e 12:51, dentre outros. Apesar de essas músicas terem sido tocadas no show, o que ajuda os saudosistas de plantão como eu, toda a performance estava meio desconjuntada. O vocalista Julian Casablancas parecia alternar entre bêbado, desinteressado e desconfortável… e os vocais, que mesmo em estúdio já são meio desleixados, ao vivo por vezes pareceram quase amadores. O que mais prejudicou a experiência, no entanto, ao meu ver, foi a decisão (?) de fazer um show em que ao fim de cada música o palco escurecia, o silêncio imperava e apenas depois de um tempo que alternava entre vários segundos a quase um minuto, a próxima música ser iniciada. Neste período, não havia nada, não havia interação com o público, não havia uma base melódica para depois a canção iniciar, não havia nada… parecia que a banda não tinha definido previamente o seu set list e eles deliberavam ali naqueles momentos qual seria a próxima a ser cantada. E, com isso, a coisa não fluia, faltava pegada, os momentos de mais intensidade ou comoção do público eram quebrados. Para mim foi decepcionante… E o público não entendeu mesmo a proposta, pois quando eles ao invés de começarem uma nova música decidiram ir embora e esperar pelos apupos pedindo por mais, pelo bis, ninguém apupou ou pediu, já que ninguém estava entendendo nada. O resultado é que eles só voltavam depois e meio que por “obrigação profissional” já que o público aos poucos esvaziava.

 

Eu adoro festivais, gosto de ver a devoção dos fãs a alguns de seus artistas favoritos, gosto da celebração à música, gosto da energia, da vibração. Sei que é também um evento comercial, noto que tem muita gente que vai mais para ser vista do que para ouvir música. Sei que a infra-estrutura é boa e cara, mas ainda assim deixa a desejar ao tentar atender um público maior do que deveria (100 mil pessoas no sábado, 90 mil no domingo). Tudo isso, no entanto, não é o meu motivo para ir. Eu vou para fazer parte deste encontro entre artista e público, conhecer coisa nova e ver como o público se conecta a cada show, a cada apresentação. E, de quebra, me (re)encontrar com aqueles que admiro e curto. E isso é sempre bom.

Como entrar em sintonia?

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Apertamos um botão e o aparelho vai vasculhando quais são as estações que estão emitindo seus sinais e com base nisso podemos entrar em sintonia com diversos canais emissores, viajar mundo afora por ondas sonoras ou de outros tipos de informação, que despertam sentimentos e sensações, pensamentos e reflexões. Nós também somos emissores e receptores de sinais e buscamos, ainda que de forma inconsciente, uma conexão interna e externa com outros emissores e receptores. Mas, como entrar em sintonia?

O primeiro passo deve passar pela resposta à difícil pergunta: quem sou eu? Para quem a princípio não entende por quê?, eu justifico. As duas rádios que eu mais ouço, 102.1 e 89.1, se assumem como rádios de rock. E essa identidade, como emissoras, é importante para que eu, receptor, busque essa conexão. Eu sei que eu gosto de rock então faz sentido eu buscar e encontrar uma sintonia com essas duas rádios. Mas, quando sou eu o emissor, está claro para a minha audiência qual é o meu repertório? Estará claro até para mim mesmo?

É assunto complicado e que me veio à mente durante a entrevista com o Manoel Morgado, justamente meu farelo anterior, quando este diz que o que a vida de nômade viajante por quase três décadas lhe trouxe de melhor era justamente este “alinhamento com quem ele era“. Para se viver uma vida tão não-ortodoxa sem arrependimentos, acredito que seja muito importante estar seguro quanto a estar se respeitando. E, diante disso, passei a me perguntar de maneira ainda mais incessante se também eu estou me respeitando com as minhas escolhas. Felizmente, hoje eu entendo que sim… ainda que  já tenha tido que fazer escolhas difíceis, daquelas que mudam seus rumos em definitivo – e procuro sempre estar atento a novas situações que exijam de mim este mergulho em todos nós que me habitamos em busca de estar alinhado com quem eu sou.

Mas, seja para o Manoel seja para mim ou para você, não basta apenas estar seguro de quem se é, da estrada que estamos a caminhar e do destino que se quer alcançar. Isso, é óbvio, já é valioso e já representa sintonia ao menos consigo. O que já é raro. Contudo, neste mundo em que tanto se interage e se expõe, eu consigo deixar isso claro para que quem porventura tenha sintonia com quem eu sou possa se aproximar e, também importante, para que quem não tem, não tenha porque se aproximar ou ao menos para que não se delongue?

Esses sinais, a nossa frequência, reverbera em nossas ações, nossas decisões do que vestir, comer, ter, dizer, não dizer, fazer, não fazer, onde ir, com quem ir e com quem não ir. Cada ação ou inação, diz quem somos. Cada ato que confirma ou nega o anterior, diz quem somos. E é a soma dessas escolhas, em geral inconscientes, naturais, orgânicas à nossa essência, é que formam a nossa marca, a nossa identidade, o nosso perfume natural. E é isto que vai atrair ou afastar os outros. Sintonizado comigo e em sintonia com o mundo, buscando outros que vibram tal e qual.

O ponto de atenção é que a vida passa e as frequências mudam. Somos bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos, maduros e idosos e vibramos diferentemente, interagimos diferentemente, decidimos diferentemente em cada fase da vida. Não é porque eu joguei e venci jogando de uma maneira que, no futuro, contra outros adversários e já mais desgastado fisicamente, eu deverei jogar igual e ainda esperar por uma vitória. Adaptar-se é sinal de inteligência e, neste caso, de manter-se sintonizado. Se hoje eu sou a rádio rock é importante saber que já ouvi Trem da Alegria e que a MPB clássica me interessa cada vez mais. Amadurecer é tanto abrir-se ao novo e ao presente quanto reconhecer o passado que eventualmente já negamos. E somar todas essas histórias para que as ondas que emitimos sejam as mais fieis possíveis.

Naturalmente, entre uma variação e outra, a gente fica confuso, emite ruídos, não se conecta com ninguém, é só chuvisco. Há aqueles que não desistem, continuam te procurando, perseveram e novamente te encontram, em outro momento, em outra frequência. Há aqueles com quem nunca mais vamos nos conectar, ficaram nos procurando naquela frequência antiga e nunca mais vão nos achar. E há aqueles que só nos acham porque agora estamos aqui, de cara nova, com novas ideias e emitindo novos sinais. E novos sinais. E novos sinais… Sintoniza!