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Em um mundo tomado por pessoas com valores corrompidos, movidos por busca de dinheiro e poder, que desvalorizam educação e cortesia, que preferem parecer a ser e que se importam mais com seus benefícios ainda que custe sofrimento alheio, há um reduto. É claro que nada é passível de generalização infalível, mas eu creio que pessoas ligadas a esportes de aventura são diferentes. Talvez pelo contato próximo com a natureza (surfe, montanhismo, mountain bike, dentre outros, proporcionam isso). Talvez pelos desafios inerentes às atividades, que reforcem o compromisso com os nossos limites e como superá-los. Ou talvez seja apenas uma idealização.

Porém, eu que não posso me considerar um esportista de aventura, talvez apenas um aventureiro, conheci gente fantástica ligada a esse mundo. Tanto amadores, como a minha esposa, o meu amigo Edson e os seus filhos e vários colegas do meu trabalho… mas também, mais recentemente, gente profissional como o fantástico Manoel Morgado (ouça esta entrevista com ele feita pelo Esfarelado), a incrível Karina Oliani ou o Pemba Sherpa, os três com cume do Everest no currículo. Gente que parece se importar mais com valores como gentileza, sinceridade, conexão e respeito com a natureza e com a humanidade em cada um de nós.

Não foi, portanto, surpresa para mim o conteúdo dos curta-metragens exibidos ao ar livre, no último sábado a noite, no festival Rocky Spirit. Muitas histórias de superação, diversão e importância no que é importante: família, viver a vida, ser feliz da maneira mais simples possível.

O festival começou com o biker Danny MacAskill fazendo coisas incríveis neste divertido vídeo:

Foi representado também pelo brasileiro Vozes Interiores, que trata do importante tema que afeta todos nós: como lidar com as vozes interiores. Para vários esportes individuais, atingir a meta tem mais a ver com saber lidar com elas do que com o desafio físico. Isso vale para mim, para você, para todos nós.

Depois somos apresentados ao personagem John Shocklee, um instrutor de esqui que fez da paixão pela neve a sua orientação na vida. Para uns, ele pode ser considerado quase que um pedinte, alguém que realmente vive com o mínimo… mas certamente ele não parece arrependido de suas escolhas e feliz com aquilo que a vida deu.

Mantendo a temperatura baixa, conhecemos a finlandesa Johanna Nordblad, no belíssimo curta que acompanha um de seus mergulhos livres sob o gelo. É de arrepiar, em todos os sentidos.

Em seguida, Ditch the Van conta a história do músico Ben Sollee, que percebeu que ao movimentar-se entre as cidades para fazer as suas turnês com uma van, ele estava deixando de vivenciar devidamente tudo aquilo… passava por vários locais, mas não conhecia nenhum. Queria mais. E abriu mão de dinheiro e conforto por uma alternativa mais lenta e mais cara (por poder encaixar menos shows no mesmo período de tempo): ir de bike. E assim cuidou da saúde, conheceu inúmeros locais, comendo e se hospedando em pequenos vilarejos entre as cidades nas quais se apresentava e conectou-se muito mais com seus companheiros de banda (que aderiram!) e consigo. Um espetáculo. Infelizmente não encontrei o curta, mas tem alguns videos no Youtube sobre o músico e o seu projeto.

Em seguida assistimos ao documentário feito por Karina Oliani sobre o Nepal e o projeto Dharma, sobre a amizade nascida entre ela e o seu guia nepalês Pemba Sherpa, que a levou duas vezes ao cume do Everest, pela face sul em 2013 e pela face norte em 2017, pelos projetos humanitários (construção de escola, ajuda médica, dentre outros) nascidos desta amizade… é um belo documentário, com lindas imagens, que trata de solidariedade e amizade de forma tocante.

O curta seguinte foi também espetacular. Os viajantes do tempo, um grupo de amigos que se dedica a um ambicioso projeto: bater o recorde de velocidade na descida do rio que corta o grand canyon. O recorde anterior é de 37 horas e eles tem que realmente se preparar, o que significa desde projetar e construir um barco adequado para o desafio quanto treinar diariamente, conciliando isso com suas atividades rotineiras de pais e esposos. É arrepiante acompanhar a saga, torcer por eles  à medida que entendemos a medida do desafio… e aprender muito com toda a jornada. Belíssimo.

Em seguida é possível sentir a adrenalina nesta descida alucinada de bike feita por Dan Atherton.

Ou se emocionar com a história da montanhista que encontrou uma maneira de conciliar a maternidade com a sua paixão pelo Alaska.

Ver o divertido – e feminista – curta sobre a presença feminina cada vez mais forte nos esportes de aventura, ao som de Cake.

E teve também o belo documentário brasileiro Sangue Latino, que narra a história da abertura de uma trilha para escalada em rocha na Bahia, por um grupo de amigos, que também é bela ao demonstrar o trabalho em equipe e a busca por um objetivo comum. Uma pena que não encontrei o vídeo.

O festival teve mais uma sessão no domingo, que eu perdi. Mas a programação está aqui e vale a pena fazer como fiz para escrever este artigo, fuçar no Youtube / internet pelos títulos e conferir. A galera do esporte de aventura está de parabéns.

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