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O fascínio que o futebol exerce em mim passa, obviamente, pela paixão inexplicável por um clube. Sim, eu sou um palmeirense antes de ser um brasileiro. E há por ai uma multidão de torcedores do Flamengo, do Corinthians, do Santos, do Vasco e do São Paulo, isso para ficar apenas nos times do eixo Rio-São Paulo. Muitos são os que torcem apenas de quatro em quatro anos e pelas cores verde-e-amarela da nossa Seleção de futebol. Estes não se envolvem, semanalmente, diariamente até, com os destinos dos nossos clubes. São torcedores ocasionais.

Para esses que torcem, que gritam, que vibram, que cantam, que celebram as vitórias, que amargam empates e que choram derrotas, houveram várias grandes transformações nas últimas décadas e que afetaram, para pior, tanto o futebol jogado no Brasil quanto como ele é visto por nós, os torcedores.

Primeiro, foi o esvaziamento dos craques que ocorre desde meados dos anos 1990, desde o advento da Lei Pelé e do fim da lei do passe, bem como do fortalecimento econômico dos grandes campeonatos europeus (La Liga espanhola, Premier League inglesa e a Bundesliga alemã, juntamente com o Calcio italiano). Com isso, aos poucos e de forma ainda mais acentuada nesta década, o nível técnico do futebol praticado no Brasil caiu muito. Hoje perdemos talentos não só para o primeiro nível europeu, mas também para centros menores e para a Ásia. Craque jogando aqui só nos seus primeiros anos profissionais ou nos últimos.

Muito disso não é devido só à modernização do futebol ocorrida fora do Brasil – hoje o campeonato de soccer norte-americano já leva mais gente aos estádios do que aqui no “país do futebol” – mas também à não-modernização que se dá aqui, com um modelo ultrapassado, dirigentes (ou cartolas) amadores, clubes tratados como posses e com planejamentos equivocados, trocas constantes de técnicos ultrapassados e que não acompanharam a revolução ocorrida no esporte – com raras exceções, como o alienígena Tite. E as dívidas malucas que enfraquecem ainda mais o poder de direcionar soluções dos clubes.

Para completar e não se eximir de culpa, o torcedor também piorou. Antes, os estádios eram mais cheios e o torcedor, apaixonado, torcia pelo seu time. Xingava também, chorava também, mas em geral apoiava e amava incondicionalmente. E não sabia nome de dirigente, não ligava tanto para a renda e, principalmente, não se preocupava tanto com as estatísticas do jogo. Era algo mais visceral e mais autêntico.

Hoje temos arenas modernas e preços de ingressos condizentes com a Europa – sem entregar a mesma qualidade de espetáculo. Com isso, temos também arenas vazias – ou no máximo, meio cheias. São raros os jogos que esgotam os ingressos. Com isso, seleciona-se o público pelo poder econômico – o que causa um embranquecimento elitizado, o que transforma o palco dos jogos em um ambiente muito mais frio do que antes, em que o time só é apoiado nas vitórias e em apresentações muito convincentes. Não há mais torcedores, mas clientes. Paguei para ver ganhar e jogar bem, se não for isso que me entregam, quero ir ao Procom. Esse é o raciocínio do novo torcedor dos estádios. O torcedor, aquele de verdade, não morreu… apenas passou a ter que acompanhar o time a distância, na TV ou nos bares.

Este novo torcedor tem, nos últimos anos, uma nova mania – e novamente, não me eximo da culpa. Um fantasy game divertido, criado pela Rede Globo (que é parte do problema no nosso futebol), chamado Cartola FC. A ideia é que você é dono de um time, tem um determinado investimento inicial e com ele escala 11 atletas e 1 treinador. A cada rodada, o time rende conforme o que os escalados fazem efetivamente em campo. Gols, defesas, passes errados, faltas cometidas e recebidas, assistências para gols, cartões amarelos e vermelhos, tudo é computado segundo um scout estabelecido pelo jogo e isso define a pontuação do jogador e também se ele se valoriza ou se desvaloriza. Simples assim. Mas suficiente para promover bizarrices, como um palmeirense como eu montar um time no fantasy game (que, por sinal, se chama Esfarelado), que tenha no plantel jogadores do Corinthians (que, afinal, faz ótima campanha este ano). E, desta forma, ver-me torcendo por eles durante os jogos, para pontuar mais… e, para culminar, ser capaz de torcer por um gol feito pelo arquirrival ou por uma bola defendida. É, não dá. Quando chega-se a este nível, sabe-se que tudo mudou, está tudo do avesso.

Para o bem ou para o mal, em um mundo em que um palmeirense torce a favor do Corinthians, por qualquer motivo que seja, é sinal de que o futebol brasileiro encontrou uma forma sem precedentes de se deteriorar. E a prova é quando torcedores questionam o técnico por uma não-escalação ou um atleta do próprio time, por uma pontuação negativa, ainda que em campo ele tenha sido decisivo, mas as estatísticas frias não tenham “percebido”. Não se enganem, são os mesmos torcedores que aplaudem a bilheteria anunciada no estádio. Futebol é mais do que estatísticas, público e renda. É paixão e é dedicação daqueles que representam esta paixão, é simples assim, mas está em falta.

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