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Sou um fã de Star Wars. Adoro jogos de tabuleiro. É óbvio portanto que me empolguei com o jogo X-Wing, que nos coloca como pilotos de espaçonaves da Rebelião ou do Império, podendo comandar X-Wings, Tie Fighters ou mesmo a fantástica sucata voadora Millenium Falcon. Tem vários videos no Youtube explicando como o jogo funciona, segue um deles como referência.

Pois bem, uma coisa que encontrei fascinante neste jogo é justamente o fato de podermos usar o espaço com liberdade. Não há um tabuleiro fixo, com casas pré-determinando onde o espaço pode ser ocupado. Podemos ir e vir, avançar ou recuar. Quando experimentei jogar pela primeira vez, a minha mesa redonda de 1,20×1,20m foi o espaço sideral durante algumas horas e a missão, plenamente cumprida, de destruir o Império, desviar de meteoros, posicionar a mira e atacar o inimigo ocorreu de forma que eu nunca havia experimentado em jogos de tabuleiro – justamente porque não há um tabuleiro.

Como é de se esperar neste espaço, o texto aqui não é apenas sobre X-Wings soltando raios de laser em direção a Tie Fighters batendo em retiradas, nem sobre as habilidades de renomados pilotos como Luke Skywalker, Han Solo ou Darth Vader. O ponto que me faz transformar a experiência de ter jogado com os amigos em mais um farelo é justamente a reflexão de como a liberdade e as regras mais soltas quanto a movimentação, quase que um livre-arbítrio da jogatina, transformaram a experiência do jogo em algo mais. Ao não impor direção ou espaços possíveis de deslocamentos e fazer com que as decisões de um afetem imediatamente e de forma irreversível a decisão já tomada pelo outro a dinâmica do jogo torna-se mais imprevisível e excitante.

 

Não é sempre assim? Não estamos sempre prontos para ocupar qualquer espaço em nossas próprias vidas, ainda que em boa parte dela a gente se atenha a regras pré-estabelecidas – muitas vezes por outras pessoas ou pela sociedade na qual vivemos? Com um pouco mais do espírito rebelde podemos correr mais riscos, ter mais atitude, ocupar novos espaços, movimentar-nos com mais liberdade, dizer mais o que realmente pensamos, mirar melhor e destruir as estrelas da morte que sempre cruzam nossos caminhos.

Podemos também, em contrapartida, nos atermos aos tabuleiros que por vezes a vida nos impõe. Ficamos no mesmo emprego ainda que já tenhamos perdido o tesão pelo trabalho. Mantemos a mesma rotina ainda que ela já não nos motive a levantar da cama. Mantemos relacionamentos que já não fazem bem. Jogamos os mesmos dados viciados, esperando por outros resultados ou por alguém que chegue e mude a cara do jogo que estamos jogando, sem interesse, antes que a partida acabe e a gente tenha perdido. Este jogo e este tabuleiro são muito traiçoeiros e é importante lermos com clareza as regras para descobrirmos o óbvio: não há tabuleiros e somos jogadores muito mais poderosos e versáteis do que imaginamos. Não podemos é jogar este jogo de olhos vendados e tropeçar pelo tabuleiro inexistente.

Assim como no jogo de miniaturas, quero fazer com que minhas naves cruzem as fronteiras espaciais, passe por cinturões de asteroides e coloque minhas habilidades como piloto à prova, para que assim eu tente cumprir com a missão da minha vida. Aqui, nesta galáxia muito distante… e sem tabuleiros para me guiar.

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