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Apertamos um botão e o aparelho vai vasculhando quais são as estações que estão emitindo seus sinais e com base nisso podemos entrar em sintonia com diversos canais emissores, viajar mundo afora por ondas sonoras ou de outros tipos de informação, que despertam sentimentos e sensações, pensamentos e reflexões. Nós também somos emissores e receptores de sinais e buscamos, ainda que de forma inconsciente, uma conexão interna e externa com outros emissores e receptores. Mas, como entrar em sintonia?

O primeiro passo deve passar pela resposta à difícil pergunta: quem sou eu? Para quem a princípio não entende por quê?, eu justifico. As duas rádios que eu mais ouço, 102.1 e 89.1, se assumem como rádios de rock. E essa identidade, como emissoras, é importante para que eu, receptor, busque essa conexão. Eu sei que eu gosto de rock então faz sentido eu buscar e encontrar uma sintonia com essas duas rádios. Mas, quando sou eu o emissor, está claro para a minha audiência qual é o meu repertório? Estará claro até para mim mesmo?

É assunto complicado e que me veio à mente durante a entrevista com o Manoel Morgado, justamente meu farelo anterior, quando este diz que o que a vida de nômade viajante por quase três décadas lhe trouxe de melhor era justamente este “alinhamento com quem ele era“. Para se viver uma vida tão não-ortodoxa sem arrependimentos, acredito que seja muito importante estar seguro quanto a estar se respeitando. E, diante disso, passei a me perguntar de maneira ainda mais incessante se também eu estou me respeitando com as minhas escolhas. Felizmente, hoje eu entendo que sim… ainda que  já tenha tido que fazer escolhas difíceis, daquelas que mudam seus rumos em definitivo – e procuro sempre estar atento a novas situações que exijam de mim este mergulho em todos nós que me habitamos em busca de estar alinhado com quem eu sou.

Mas, seja para o Manoel seja para mim ou para você, não basta apenas estar seguro de quem se é, da estrada que estamos a caminhar e do destino que se quer alcançar. Isso, é óbvio, já é valioso e já representa sintonia ao menos consigo. O que já é raro. Contudo, neste mundo em que tanto se interage e se expõe, eu consigo deixar isso claro para que quem porventura tenha sintonia com quem eu sou possa se aproximar e, também importante, para que quem não tem, não tenha porque se aproximar ou ao menos para que não se delongue?

Esses sinais, a nossa frequência, reverbera em nossas ações, nossas decisões do que vestir, comer, ter, dizer, não dizer, fazer, não fazer, onde ir, com quem ir e com quem não ir. Cada ação ou inação, diz quem somos. Cada ato que confirma ou nega o anterior, diz quem somos. E é a soma dessas escolhas, em geral inconscientes, naturais, orgânicas à nossa essência, é que formam a nossa marca, a nossa identidade, o nosso perfume natural. E é isto que vai atrair ou afastar os outros. Sintonizado comigo e em sintonia com o mundo, buscando outros que vibram tal e qual.

O ponto de atenção é que a vida passa e as frequências mudam. Somos bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos, maduros e idosos e vibramos diferentemente, interagimos diferentemente, decidimos diferentemente em cada fase da vida. Não é porque eu joguei e venci jogando de uma maneira que, no futuro, contra outros adversários e já mais desgastado fisicamente, eu deverei jogar igual e ainda esperar por uma vitória. Adaptar-se é sinal de inteligência e, neste caso, de manter-se sintonizado. Se hoje eu sou a rádio rock é importante saber que já ouvi Trem da Alegria e que a MPB clássica me interessa cada vez mais. Amadurecer é tanto abrir-se ao novo e ao presente quanto reconhecer o passado que eventualmente já negamos. E somar todas essas histórias para que as ondas que emitimos sejam as mais fieis possíveis.

Naturalmente, entre uma variação e outra, a gente fica confuso, emite ruídos, não se conecta com ninguém, é só chuvisco. Há aqueles que não desistem, continuam te procurando, perseveram e novamente te encontram, em outro momento, em outra frequência. Há aqueles com quem nunca mais vamos nos conectar, ficaram nos procurando naquela frequência antiga e nunca mais vão nos achar. E há aqueles que só nos acham porque agora estamos aqui, de cara nova, com novas ideias e emitindo novos sinais. E novos sinais. E novos sinais… Sintoniza!

 

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