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Eu sou um fã de Demolidor. Lia muito na minha infância ou adolescência, nos anos 80 e começo dos 90. A única versão cinematográfica do personagem, até então, era com um uniforme preto no filme O Julgamento do Incrível Hulk, que passava no SBT. E só os iniciados o reconheciam, já que o seu nome foi traduzido como Audacioso (algo mais literal com relação ao Daredevil do original, mas sem os dois DDs necessários para justificar o símbolo adotado pelo personagem em seu uniforme).

Lembro-me claramente da saga da Queda de Murdock, da boa fase de John Byrne, de Frank Miller. Sempre gostei de personagens sem grandes super-poderes e Demolidor era bastante humano apesar dos seus. Ben Urich, o repórter investigativo, e Foggy Nelson, o seu parceiro no escritório de advocacia, eram personagens que me fascinavam por tratar-se de pessoas bastante ordinárias. E Matthew Murdock (Charlie Cox, no seriado), o advogado cego é tão importante quanto sua contraparte, O Homem Sem Medo – ou o Demônio de Hell´s Kitchen, codinome adotado pelo bom seriado da Netflix. O herói aparecia nas páginas da finada revista Superaventuras Marvel e eu aguardava ansioso mês a mês para continuar acompanhado suas aventuras.

Ignorando aqui o filme em que o herói é retratado por Ben Affleck, chegamos no seriado entregue pela Netflix e já com duas temporadas.

Apesar de ser fã e de ter ficado extremamente satisfeito em poder ver este personagem e seu universo bem retratados no seriado produzido pela Marvel e Netflix, eu entendo que houveram pecados graves, principalmente na segunda temporada. Abaixo, comentários cheios de spoiler sobre o que eu gostei, o que eu não gostei e uma pequena reflexão sobre os arcos de cada temporada.

O QUE FICOU LEGAL?

  1. O realismo, mostrando o personagem apanhando MUITO, se cansando durante as lutas, com dilemas morais interessantes e convivendo com pessoas ordinárias, que sentem que o mundo está ficando cada vez mais complicado agora que seres superpoderosos fazem parte do seu cotidiano e que interesses cada vez mais megalomaníacos de pessoas mal intencionadas (ou “vilões”) atrapalham cada vez mais a paz e o modo de vida das pessoas.
  2. As interpretações. A começar pelo próprio Demolidor – com um destaque para o trabalho de Charlie Cox simulando os trejeitos de alguém cego e demonstrado toda a vulnerabilidade do personagem e a sua vontade de se fazer entender por aqueles que gosta, à medida que suas ações cada vez mais o afastam destes. O segundo destaque vai para o Rei do Crime, de Vincent D´Onofrio, ameaçador com seu jeito contido de falar mas com frieza no olhar e uma violência que, uma vez invocada, não cessa. O terceiro destaque é o Justiceiro de Jon Bernthal, que dá vida a um personagem difícil, de maneira consistente e verossímil, roubando para si a segunda temporada. O quarto vai para a Karen Page de Deborah Ann Woll, personagem difícil por ter mais função de roteiro do que efetivamente ser um personagem verossímil nas situações em que se envolve – e o crédito vai para a atriz conseguir transformá-la em alguém real e com quem nos importamos. O Stick, do veterano Scott Glenn, e o Ben Urich de Vondie Curtis-Hall, junto com o Foggy Nelson de Elden Helson, completam as menções honrosas, ajudando com honras a construir o mundo do Demolidor no seriado.
  3. O uniforme do herói, que vai evoluindo de uma simples roupa preta para a versão de armadura e nunchaku que o personagem usa ao fim da segunda temporada.
  4. Os planos sequência do resgate do menino sequestrado no estilo Oldboy, logo no segundo episódio da primeira temporada, é memorável. E na segunda temporada vemos algo similar mas ainda mais complexo, ao vermos o herói descendo as escadas de um prédio enquanto duela com múltiplos oponentes… e depois a sequencia de Frank Castle na cadeia, selvagem como poucas coisas disponíveis na TV.
  5. O cruzamento com outros personagens, como a advogada Hogarth de Jessica Jones, a menção ao Luke Cage e a participação, pequena mas interessante, de Madame Gao já construindo espaço para o Punho de Ferro.
  6. A boa exploração da fé e do catolicismo do personagem central. Algo que fica visível até na ótima – e sangrenta – vinheta de abertura.

OS PECADOS DO DEMOLIDOR

Pois é, eu gostei e estou até ansioso pela terceira temporada – e até por Punho de Ferro e Os Defensores… mas vários pontos me incomodaram na série. Tais como:

  1. Elektra… um personagem tão importante e marcante para o desenvolvimento do herói, não poderia ter uma intérprete tão fraca quanto Elodie Yung.
  2. Elektra, de novo! Como se não bastasse a atriz escalada não dar conta do recado, a trama envolvendo a personagem é bastante mal desenvolvida. Afinal, se ela é o Black Sky, “a escolhida”, e o Stick decide até matá-la para evitar que o Tentáculo a alcance, mais para o final da segunda temporada, então porque ele a salvou depois de ela estar praticamente morta? Era mais fácil tê-la deixado morrer. E porque só a abandonou quando ela decide “se entregar ao bem já que Murdock acredita nela”? E porque Stick, na primeira temporada, vai matar o menino que chega de navio e deveria ser o Black Sky, se ele na verdade sabia que não era – mas sim a Elektra – e seria muito mais prático deixar Nobu enganar-se com o tal garoto.
  3. Blacksmith. O final da trama da segunda temporada é bem forçado, até faz sentido o tal Blacksmith tentar incriminar Castle depois de ele ter saído da cadeia, mas a forma como ele é descoberto por Page e depois liquidado por Castle são muito fracas, deixando um gostinho amargo ao final do que até então era uma saborosa evolução da trama e da conspiração em torno do que ocorrera no parque.
  4. A morte de Ben Urich, bastante desnecessária pensando na evolução daquele universo, com um personagem clássico do Demolidor das HQs… e o pior foi ver o seu espaço ser ocupado pelo seu ex-editor-chefe, Mitchel Ellison, que era comprado pelo Fisk na primeira temporada e tem uma redenção sem explicação na segunda. Por falar nisso,
  5. Parece que os roteiristas da segunda temporada ignoraram a primeira, como o caso do Black Sky e do Ellison. E o pior, o pessoal que escreveu o terço final da segunda temporada parece que não assistiu os outros dois terços restantes também. As coisas não se encaixam bem quando fazemos uma revisão mais consistente.
  6. O tal buraco gigante que parecia tão importante e nunca é explicado. Um buraco que não leva a lugar nenhum.
  7. Aquele bando de ninjas da segunda temporada, que não faz muito sentido no fim das contas e é bastante excessiva, em tempo de tela e em quantidade de figurantes.

UMA PEQUENA REFLEXÃO

Na primeira temporada, vemos a história da origem, a descoberta dos poderes, o estabelecimento do objetivo de fazer justiça além da justiça. E o grande arco é o contraponto entre ele e o Rei do Crime, cada um com a sua visão de fazer algo pela cidade, de salvá-la de acordo com seu próprio ponto de vista. O Demolidor, ajudando a polícia a prender aqueles que escapam da lei, mas sem matar. O Rei do Crime, matando a todos os concorrentes para consolidar a sua visão de paz e prosperidade.

Já na segunda temporada, a figura do Justiceiro surge para oferecer um outro remédio, punir com a morte aqueles que erraram, sem ceder a segundas ou terceiras chances. O diálogo entre ele e o Demolidor, em que Frank Castle argumenta que o método de Murdock não funciona traz o grande mote da segunda temporada: existe segunda chance? Faz sentido não matar alguém que pode, em pouco tempo, estar livre e voltar a ameaçar a tranquilidade da sociedade?

O Demolidor tenta submeter todos os seus parceiros heróicos a esta visão e vai se isolando o tempo todo. Ele pede isso a Stick, ainda na primeira temporada, e é traído. Ele pede isso a Elektra, e é traído. Ele pede isso ao próprio Justiceiro, e não chega a ser traído pois Castle nunca se convence de que não matar possa fazer sentido. Ao gritar para que Elektra não matasse um ninja, em determinado momento, ele provoca uma distração que faz com que ela acabe atingida e quase morra em decorrência disso.Seria uma troca justa para ele? Diante disso tudo, aos poucos o próprio Demolidor vai se quebrando em suas convicções, tanto que ele deixa de questionar as mortes de Elektra, mais ao final da segunda temporada, e admite verbalmente que aceitará que Castle liquide seu inimigo, algo que parecia impossível diante de seu código moral e religioso.

Porém, o que mais me chamou a atenção, é que ele próprio arremessa Nobu à morte, ciente do que está fazendo. Não há, no seriado, um debate maior sobre isso, o personagem não se explica – e também senti falta disso, já que ali, para mim, foi a movimentação para o outro lado, o cruzar a linha que Castle e o próprio Stick tanto queriam ver acontecer…

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