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Não era uma grande árvore, nem tampouco era uma árvore velha. Estava mais para um arbusto, ainda jovem e viçoso, verde e produtivo, com seus galhos adornados pelas robustas e belas pérolas negras, os seus saborosos frutos, as amoras. A amoreira lá estava, sempre imóvel, a não quando suas jubas se balançavam diante de um vento um tanto mais vigoroso, que até faziam com que algumas de suas amoras no chão caíssem e ali ficassem, preparando-se para adubar o terreno e devolver um pouco do carinho à sua fonte ou então servindo de alimentos para pássaros e outros bichos daquele bosque.

A amoreira não pensava sobre a vida. Ela não sabia se ali tinha sido plantada por algum agricultor em busca de produção de geleias, ou se tinha sido plantada por um menino cumprindo suas tarefas escolares no dia da árvore, ou se tinha sido plantada em uma fazenda do interior de Minas Gerais para complementar um belo pomar com várias outras árvores frutíferas ao seu redor, e ela tampouco sabia sequer se havia sido plantada, tendo assim uma vida intencional, ou se seria obra da maravilhosa natureza e do acaso, tendo germinado a partir de sementes esvoaçantes, de um solo fértil e da ação da chuva.

Nem por isso, veja que interessante, fazia com que ela deixasse de ser. Não importava – e ainda não importa – para ela se sua vida tinha um propósito, uma missão ou se ela ali estava apenas para desfrutar dos anos a que teria direito. Ela continuava respirando, crescendo, estendendo seus galhos e ofertando seus frutos, estação após estação, ano após ano, sempre adiante, sempre radiante.

Ali perto desta amoreira morava um menino. Ele era tímido, calado, ainda desconfiado de que não sabia ao certo como deveria se comportar à medida que crescia e entendia cada vez menos das coisas do mundo. Era inquieto, impaciente, queria saber mas não tinha alguém para quem perguntar. Este menino um dia se apaixonou. Era ainda bastante jovem, eram dessas paixões juvenis e o menino só conseguia pensar nela. Apesar de tímido, um dia, este menino foi até a amoreira e colheu as amoras mais bonitas. Em sua cabeça bastava fazer esta oferenda para o objeto de seu encanto que ela passaria a olhar para ele de outra forma. Ofereça as amoras e vai conseguir amor, parecia pensar o garoto.

Naquela mesma tarde, ainda perto de sua casa e de tocaia aguardando que ela, mais velha, voltasse da escola passando por ali, ele venceu sua timidez e a abordou. São para você, disse ele. Eu colhi as mais bonitas, afirmou ele. Queria que você as provasse e que isso provasse que me importo com você, parecia pensar ele. Ela, por sua vez, não poderia estar mais indiferente àquele gesto. Ela o achava esquisito. Ela agradeceu e seguiu seu caminho. Sequer provou as amoras. O menino, agora furioso e se sentindo infeliz e injustiçado, voltou sua ira contra a amoreira, depenou alguns de seus galhos, empurrou e quebrou vários outros, chutou o tronco da amoreira. E então sentou ao seu pé, pôs-se a chorar. E quando a chuva chegou, foram os galhos quebrados e sem folhas que o protegeram. Os pingos que escorriam pelas pontas dos galhos estraçalhados eram lamentos chorosos. A amoreira chorava, pois queria muito que a menina tivesse comido suas amoras.

 

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