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Você sabe me dizer quais são os seus defeitos? E não vale aqueles de entrevista de emprego, aqueles que são qualidades disfarçadas, algo do tipo “sou muito perfeccionista” ou “eu me entrego demais e não sei definir meus limites”, estou falando de defeitos defeitos mesmo, coisas como as suas chatices, esquisitices, rabugentices e outros ices, estou falando em ser capaz de listar as situações em que você foi egoísta, maldoso, invejoso, rancoroso. É fato que todos temos nossos momentos ruins, mas como só nós estamos nas nossas cabeças e, portanto, só nós temos todo o contexto para justificar ou explicar cada uma de nossas atitudes, é mais difícil para nós mesmos percebermos os nossos defeitos – e, ao mesmo tempo, é muito fácil ver os defeitos dos outros, pois nós os conhecemos bem, pois também estão conosco em menor ou maior grau, mas vendo de fora é sempre mais tranquilo de reconhecer, julgar, apontar o dedo.

Pois bem, depois dessa pequena introdução retomo a pergunta: você sabe me dizer quais são os seus defeitos? Eu tenho vergonha em admitir que eu não sei direito. Já fui taxado diretamente, por pessoas a quem respeito e admiro e que me conhecem muito bem, de várias coisas. Acredito que os principais itens da lista sejam egoísta, arrogante, insensível e manipulador. Eu acrescentaria ainda um alto grau de vaidade intelectual, insegurança e falta de fibra em momentos críticos. E essa é só uma lista assim, feita de cabeça e de itens mais recorrentes, já que infelizmente eu não criei o hábito de anotar meus defeitos, algo que eu devo corrigir em breve e que é, na verdade, o real motivo deste farelo.

A tarefa de listar seus defeitos é complicada pois, como eu já disse, eu saberia justificar a maioria das situações em que fui taxado de egoísta, ou de manipulador, ou de arrogante, ou de insensível… e com mais contexto, deixando claro meu ponto de vista e o que me levou a agir daquela forma em cada situação, eu provavelmente conseguiria uma boa atenuação da pena ou quem sabe até uma absolvição em alguns casos. Mas esse não é o ponto, defesas nem deveriam ser necessárias se todos aceitássemos que somos humanos e erramos, e que esses erros servem, ou deveriam servir, para aprendermos. E é ai que vem o maior dos defeitos, na minha humilde opinião, que é o de não reconhecer seus próprios erros. E esse, eu espero, eu não tenho ou ao menos luto para não ter.

Não conseguir reconhecer os próprios erros, sejam eles provenientes de atos falhos isolados ou de defeitos recorrentes em sua forma de ser, é calamitoso pois impossibilita de tentar corrigi-los. Defender-se justificando, colocar a culpa de um problema em outra pessoa ou na situação, ou negar-se a assumir que problemas e falhas existem é um caminho que leva a uma porta fechada em um quarto escuro, solitário, em que sozinhos ficamos felizes com a nossa satisfação em acreditar que não erramos, que somos perfeitos ou mal compreendidos, que o mundo é injusto e as pessoas complicadas, que deveria existir mais paciência e compreensão conosco… essas são as muletas que eu quero tentar evitar – e talvez passar a anotar as situações em que errei, como uma espécie de caderno de penitências, em que cada palavra escrita deveria ser complementada com uma lição, um ensinamento e uma fórmula pessoal para que aquela página seja virada e não volte a ser reescrita.

Curiosamente, é muito raro ter oportunidades de ouvir e aprender sobre nossos erros, os tais “feedbacks” não são tão bem-vindos quanto se imaginaria, pela maioria das pessoas, que preferem viver em seus quartos de isolamento. Aquele ditado do comércio “se gostou, fale para os outros, se não gostou, fale comigo” não é tão válido assim quando falamos de nossas relações interpessoais, pelo contrário, em geral nossa postura é de adorar ouvir elogios e de “não venham apontar meus erros”. E, de novo, as portas vão se fechando e a resposta à simples pergunta da sua lista de defeitos vai ficando difícil.

Sendo assim, encerro este 171 pedindo a mim mesmo – e a todos que lerem este texto – que estejamos mais abertos e atentos às nossas palavras rudes, às nossas más atitudes, aos nossos movimentos menos altruístas, aos nossos egoísmos sem sentido e que machucam ou prejudicam, às nossas vaidades e orgulhos, às nossas explosões de ira, às nossas mentiras. Tudo isso existe e vai continuar existindo em nós e nos próximos a nós, infelizmente, pois somos humanos, demasiados humanos, e imperfeitos em nosso caminho ainda incompleto. Saibamos perdoar e pedir perdão, saibamos aprender e tentar evitar repetir os mesmos erros continuamente. Saibamos, enfim, reconhecer que erramos, quando erramos – e assim já estaremos evitando o pior dos erros.

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