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A brevidade da vida é algo que sempre me incomodou, mas tem me incomodado ainda mais agora que parece que viver virou essa coisa frenética e incessante, em que não existem mais pausas. É aí que a gente se lembra claramente de algo que aconteceu há seis meses atrás, pois esses 6 meses parecem ontem e eu nem vi passar.

Pare e pergunte a si mesmo, faz quanto tempo que você parou e perguntou algo a si mesmo? Não temos mais tempo para esse tipo de coisa. Estamos todos intensamente conectados, mesmerizados pela quantidade absurda de informação que nos inunda, que nos abastece mesmo que já estejamos cheios. Essa é a primeira geração que está passando por essa vida-enxurrada, que nos leva sem destino e cujos males ainda hão de ser melhor compreendidos, não é possível que esse nosso novo modo de vida não terá impactos. Eu prevejo que vamos despencar nos quesitos foco, nível de atenção e profundidade de conhecimento, como respostas diretas aos estímulos rápidos e contínuos, superficiais e às interrupções ininterruptas a que estamos submetidos cotidianamente.

Eu olho para mim e para minha rotina e os cabelos brancos começam a brotar instantaneamente. Acordo com um celular tocando e é inevitável já olhar a rede social, ou o e-mail, ou acessar um joguinho, logo em seguida a deslizar o dedo para desligar o alarme. O celular me acompanha também à mesa, mas ao menos me deixa livre no banho, que agora eu tenho aproveitado para já me barbear. Se estou cozinhando, eu gosto de ouvir um podcast… se não estiver com o telefone pendurado por alguma ligação de emergência do trabalho. O trabalho mesmo, nunca é um só, são sempre vários: vários canais de comunicação (Slack, Skype, e-mail, telefone, WhatsApp, Facebook) para facilitar as interrupções, várias tarefas diferentes sobre assuntos diferentes que eu tenho que resolver durante a jornada e as várias procrastinações a que sou tentado sempre que um link com uma lista de Top 10 qualquer coisa salta aos meus olhos. Se resolvo relaxar um pouco vendo TV, por exemplo, o zap predomina e não apenas para trocar de canal, mas também para trocar o meu olhar da tela grande para a pequena, em minhas mãos. Se estou dirigindo, tem um rádio ou um MP3 tocando.

No parágrafo acima, descrevo situações em que, em geral, estou sozinho. Ou seja, situações em que momentos de reflexão seriam possíveis e até bem-vindos. Mas vejo que é tão – pronto, acabei de dar um Alt+Tab no meio da frase que eu escrevia e agora perdi a linha de raciocínio do que estava escrevendo… e o pior é que o alt+tab foi só por vício, acabei nem vendo nada na outra janela. Bom, retomando, hoje em dia é quase impossível estar fazendo apenas uma coisa, imagina então não estar fazendo nada.

E, curiosamente ou não, fazer nada e pensar em nada é o alvo da meditação, assunto que tem ganhado grande destaque. Não fazer nada é sonho de consumo aqui em casa, a Gi e eu sempre pensamos que será ótimo ter um fim de semana para não fazer nada, mas é tão difícil, há sempre tanto a fazer, tantas pessoas a visitar, tantos compromissos a cumprir, tantas coisas para organizar.

E o tempo, o tempo não para. Ele é um mano velho que é tão velho que está aí desde sempre. E, ainda que infinito, ele é tão limitado para cada um de nós.  Os dias continuam a ter 24 horas, os anos continuam a ter 365 dias. E não há muito o que possamos fazer a respeito. O tempo tem seu próprio ritmo. Cabe a nós, e a mim, repensar o que queremos fazer com o tempo que cabe a nós. Ele é pequeno e cada novo dia é um presente e um desafio, pois devemos zelar por ele da melhor forma. Para mim, dada a minha rotina, zelar por esse presente parece ser recheá-lo com o máximo de atividades possíveis, para viver dias cheios. Hoje, neste 171, quero registrar que eu acredito que estou vivendo uma transição, quero dias menos cheios, quero mais pausas, quero uma coisa por vez, quero não fazer nada.

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