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Eu sou apaixonado por futebol. Acompanho programas de discussão esportiva (Linha de Passe, da ESPN, é o meu favorito), assisto vários jogos de futebol inclusive vários que não envolvem o time do meu coração, o Palmeiras. Assisto todos os jogos das Copas do Mundo desde 1990, sendo que desde 1997 eu já estava na Universidade e depois trabalhando e depois fazendo mestrado e doutorado e continuamente trabalhando. Sim, o futebol é algo que importante bastante para mim. Repetindo frase atribuída ao ex-treinador da Squadra Azzura, Arrigo Sacchi: Dentre as coisas que não importam nada da vida, o futebol é a mais importante.

Pois bem, queria aproveitar este preambulo futebolístico deste 171 para usar o futebol como comparativo da nossa cultura e do nosso momento polítfutebolico. Será que dou conta?

Esse tema não surgiu por acaso. No final de semana agora ocorreu o embate entre Barcelona e Real Madrid, dois dos times mais caros e importantes do mundo, onde hoje atuam Messi e Cristiano Ronaldo, que vem se alternando consistentemente no posto de melhor jogador de futebol do mundo há uma década. Além de Neymar e outras celebridades da bola.

É claro que trata-se de um jogo que atrai a atenção do mundo todo. E, neste sábado, o juiz da partida errou, em lances sérios, algumas vezes. Ele errou ao não marcar uma falta em Messi na entrada da área, que resultaria em expulsão do adversário já amarelado. Ele errou ao invalidar um gol legítimo do Real Madrid. Dois lances capitais, um a favor de (ou contra) cada um dos times. Na saída do jogo, que terminou com derrota em casa do Barcelona por 2 a 1, de virada e contra 10 jogadores do adversário nos últimos 10 minutos do jogo, houveram entrevistas de Piqué e Marcelo. O jornalista perguntou a ambos sobre a arbitragem do jogo. Os dois, incluindo aí um brasileiro, foram ótimos ao não focar o resultado em função dos erros do árbitro. Mesmo Piqué, que  perdeu o jogo e poderia estar inconformado, preferiu responder algo como: “Tenho certeza que ele (o juiz) queria sempre acertar, mas nem sempre é possível. É difícil mesmo apitar, as jogadas são muito rápidas”. Marcelo, do time vencedor, poderia também estar inconformado com o gol anulado ou até com o jogador (justamente e até tardiamente) expulso, mas ao responder a mesma pergunta disse que o jogador mereceu a expulsão, mas que isso acontece e que o importante é que houve entrega e que ele ajudou bastante ao time enquanto esteve em campo. Nada sobre erros do juiz ou a influência dele no placar.

É claro que tecnicamente salta aos olhos a distância entre o futebol praticado hoje na Europa e este arremedo de esporte chinfrim praticado nos campos brasileiros. É triste. Mas é ainda mais notável, a meu ver, essa diferença cultural, de evitar acusações à arbitragem que mais servem como muletas, como formas de se encobrir as devidas responsabilidades dos jogadores e técnicos dos nossos times. Aqui o juiz é sempre a pauta do pós-jogo. Como é difícil assumir que poderiam ter jogado melhor ou que o adversário foi superior. Reclamam até quando a arbitragem é boa – coisa que passou longe de ser verdade no caso que usei para ilustrar a situação acima no jogo ocorrido na Catalunha.

Porém, já que eu aproveitei para falar mal do futebol praticado aqui no Brasil, queria aproveitar para discorrer um pouco mais também sobre essa diferença importante. A Europa, há algum tempo, passou a ver o futebol como negócio. É um negócio sujo também, não me iludo, mas um negócio que é tratado como o produto que é, o que culmina em estádios sempre cheios, boas arrecadações, o que aumenta a visibilidade do time para mais publicidade, o que desperta interesse de emissoras de TV, o que aumenta a arrecadação e permite a montagem de times ainda mais fortes em ligas cada vez mais interessantes, o que desperta interesse… e temos um ciclo virtuoso. Aqui, ao contrário, o futebol é maltratado ao extremo pelos “dirigentes”, que só se preocupam, como é comum com quem cuida do nosso patrimônio cultural e da nossa política, com o próprio umbigo.

Aqui no Brasil os times são formados por refugos dos centros periféricos do futebol mundial, jogadores em fim de carreira e as promessas que não deram certo. Os técnicos são obsoletos e o material humano é limitado. Os campeonatos são desorganizados. A agenda é desgovernada e desalinhada. O resultado são vários times com muita história passando vexames históricos (como as goleadas recentes sofridas pelo Santos contra o Barcelona e depois confirmadas pelo time da CBF contra a Alemanha, mas os Tolimas e Mazembes também estão aí para confirmar a regra). A seleção de CBF ou do Dunga é outro grave problema, atendendo muito mais ao atraso e aos interesses dos empresários dos jogadores do que à reconstrução do nosso futebol.

É triste notar que este esporte com o qual boa parte dos brasileiros tem uma relação tão calorosa, hoje vive do passado, do saudosismo. Já fomos o país do futebol, hoje os melhores jogadores dos nossos campeonatos são facilmente levados para jogar na China ou nos Emirados Árabes. A média de público do campeonato norte-americano – sim, dos EUA! – é maior do que a do nosso principal campeonato.

Toda essa constatação do caos no qual o país do futebol está inserido serve justamente para pontuar a proximidade que há com a confusão que também vivemos no panorama político. E não há grandes diferenças, este é o resultado do trabalho daqueles que colocam interesses privados à frente dos interesses públicos, dos que agem por umbiguismo, dos que não conseguem se modernizam e premiar o moderno, apostando no que já funcionou um dia justamente baseado neste argumento de que um dia aquilo já funcionou.

Precisamos, urgente, de um golaço para virar este jogo.

 

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