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Sim, este farelo é sobre Lula, sobre Dilma, sobre o PT, sobre o PSDB, sobre corrupção, sobre impeachment, sobre golpe, sobre tudo isso que virou a nossa farofa política diária.

Mas, antes, eu nem preciso deixar claro que sou um alienado, pois já disse isso à época dos atentados em Paris e o desastre em Mariana, neste outro farelo aqui.  Mas é que minha alienação pede um posicionamento dado o cenário político brasileiro, que me deixa profundamente desgostoso, aterrorizado e inconformado. Provavelmente não pelas mesmas razões que também deixa cada um de vocês, porque cada um de nós é um ser individual e nossas posições também são – ou deveriam ser, se cada indivíduo se dispusesse a refletir sobre a sua própria alienação como eu agora faço.

Pois bem, antes de qualquer coisa vamos esclarecer alguns fatos sobre mim. Eu votei em Lula duas vezes e em Dilma, também duas vezes. A última delas bastante contrariado. Não queria ter votado nela pois tinha já tinha ficado incomodado com sua inépcia durante o seu primeiro mandato. Mas, dado que a alternativa era Aécio, votei e votaria de novo nela se a eleição fosse hoje.

Apesar disso, eu não sou petista. O partido pelo qual eu nutro mais afinidade e alinhamento é o Partido Verde, mas ele infelizmente não tem representatividade e peso nacionalmente.

Curiosamente, eu também não sou anti-tucano, dado que a bipolarização assim exigiria. Eu me vejo como alguém de centro-direita… eu sou um social-democrata, algo que no Brasil existe quase que só no papel, mas não na prática.

Deixe-me tentar explicar como eu enxergo o meu posicionamento político. Eu sou a favor de um estado menor, mas não mínimo. Não acho que a iniciativa privada deva ser encarregada de assuntos como saúde, educação e segurança – e isso me parece óbvio, já que essas são movidas pelo lucro e, naturalmente, há várias regiões menos assistidas e menos interessantes de um ponto de vista comercial que necessitam ser atendidas em todas essas necessidades. Por outro lado, acho que a iniciativa privada e o livre mercado devem atuar com uma legislação que simplifique os aspectos tributários e trabalhistas. O mercado é mais exigente do que o Estado, a qualidade e a eficiência tendem a aumentar, novas oportunidades e inovações tendem a surgir e o Estado se beneficia ficando mais rico através de arrecadações mais gordas. Com esse dinheiro em caixa, eu acredito que o foco do Estado deva ser distribuição de renda e a garantia plena do desenvolvimento de seu povo, equalizando o acesso à educação, saúde e oferecendo segurança pública de qualidade.  Um Estado mais enxuto e que arrecada mais pode proporcionar ainda mais desenvolvimento e qualificação para a população. Finalmente, para que seja possível essa privatização de alguns setores, o estado deve fortalecer a regulação, através de agências reguladoras, que devem ser muito ativas e firmes para averiguar e punir abusos, garantir investimentos estratégicos das empresas e concessões e forçar a eficiência dos setores e um serviço de alta qualidade.

É lógico, portanto, que sou a favor do Bolsa Família, que é um programa de distribuição de renda, que ajuda famílias carentes a subsistirem e, com isso, a que mais crianças tenham acesso à educação, com potencial para mudar suas vidas. Este projeto e tantos outros, desde que vinculados a programas de mudança das perspectivas sociais dos beneficiados, são importantes para que a nação dê um salto dentro de poucas gerações.

Quem leu até aqui viu que estou falando de uma forma de pensar. Podemos estar um pouco mais à direita disso (o neoliberalismo com seu estado mínimo) ou um pouco mais à esquerda (um Estado ainda mais presente na Economia, com intervenções e protecionismo na economia, mas programas sociais e distribuição de riqueza ainda mais fortes). Podemos querer um pouco mais de socialismo ou um pouco mais de capitalismo nesta difícil receita de gerir um país tão grande, confuso, com leis arcaicas, aristocrático e apolítico. Qual o seu pensamento sobre como as coisas deveriam ser feitas? Pense a respeito de política e seu posicionamento antes de pensar em nomes de políticos.

Infelizmente, a meu ver, o brasileiro é reducionista e, em geral, não se aprofunda. O Facebook veio para potencializar esse comportamento preguiçoso e um eventual resgate de Cazuza e seu “eu vejo o futuro repetir o passado” se faz quase que necessário.

Agora que eu disse tudo isso e me posicionei em termos de política, deixa eu me queixar um pouco sobre o que tenho lido, ouvido e discutido.

Sobre o PT. Obviamente é triste ver um partido que se travestia de incorruptível, ter vários dos seus membros – alguns deles históricos – ligados a tantos e consecutivos escândalos. Eu não tenho dúvidas que o PT é um partido sujo, como são também todos os outros grandes (PSDB, PMDB, DEM e por ai afora) e, muito provavelmente, também os pequenos. E esse problema só será resolvido com instituições fortes. E nossa câmera, senado e judiciário estão longe de ser isso, tão corruptos quanto os partidos e, é triste, a sociedade em geral.

Sobre Lula. Eu, pessoalmente, até acho que ele tenha sim sido beneficiado por algum dos vários esquemas com empreiteiras. Talvez também tenha sobrado algum benefício para ele por algum esquema na Petrobrás. Mas eu achar e nada é quase a mesma coisa. O fato é que Lula está na vida pública brasileira há décadas, sendo vasculhado e atacado de todas as maneiras, e até aqui não há provas. No mínimo, trata-se de um gênio em despistar. Vejam que por enquanto ele é apenas suspeito e até que existam provas e um julgamento seguido de uma condenação, fica evidente que todas as capas de revista e matérias em jornais e na TV são mais circo – obviamente movido por algum interesse. Falando nisso:

Sobre a Globo (e a grande mídia): essa é a parte mais perigosa que estamos vivendo. Imaginem que 10 garotos tinham que decidir se iriam escalar a montanha A ou a montanha B. Era impossível escalar as duas e eles tinham que estar unidos para executar a tarefa. A menina Dilma queria que subissem a primeira montanha enquanto o menino Aécio preferia a montanha B. O resultado é que 6 meninos optaram por ir com Dilma, mas os outros 4 ao invés de aceitarem e seguirem para juntos alcançarem o cume, preferiram travar tudo e ficar puxando os outros 6 de forma que ninguém saísse do lugar. Esse é o nosso país hoje, com os derrotados democraticamente impedindo que o Governo governe e fazendo com que haja apenas instabilidade – e consequentes recuos de investimentos – e paralisia. Para complicar as coisas, dos 10 meninos, 8 só se informam pela grande mídia e 1 deles nem TV tem. Neste caso, é óbvio que o que é dito e repetido acaba sendo tomado como verdade. Se há um consenso – e culpados sem julgamentos e julgamentos sem provas – ninguém pode sequer questionar o que está sendo dito. E esse domínio na divulgação da informação faz com que esta possa ser maquiada como queiram, indo de acordo com a tendência e os interesses. Para deixar claro o que eu penso sobre a Globo, vou dar um exemplo fora da política. A Globo perdeu o direito de transmissão das Olimpíadas de Londres para a Record. Trata-se do maior evento esportivo do planeta. Não houve cobertura, o evento foi ignorado. A decisão foi jornalística ou movida por interesses financeiros? Se ela age assim neste caso, é inocência pensar que não é assim sempre.

Eu acredito sim que a cúpula do PSDB (Aécio, Serra, FHC, Alckmin), aliada ao governista PMDB que é um partido-vampiro, trama a tomada de poder através de um impeachment que cheira a golpe, já que motivado por esse domínio da mídia e depois de ter perdido a eleição democrática e sob a sombra de Lula em 2018. Estão fora do poder desde 2002 e por não estarem conseguindo reagir no voto, tentam manobrar para chegar ao poder por outros meios.

OK, neste momento devo estar sendo chamado de Petralha, Petista Canalha ou idiota. Não tem problema. Eu vejo o golpe de 64 que tirou um partido de esquerda e trouxe um governo militar e de extrema-direita ao Poder em um passado não tão distante e isso basta para dizer que não seria inédito no Brasil caso isso venha a acontecer.

É claro que as pessoas estão convencidas de que, na verdade, trata-se de uma luta contra a corrupção e ponto final. Que esses que citei acima são tão ruins quanto os Petistas afetados pelo impeachment. Pois é, a farinha pode até ser do mesmo saco, mas o processo de impeachment não vai mudar o saco, só a farinha. Cunha é um escândalo, Temer é um absurdo, Calheiros é vergonhoso… e é na mão desses que a casa vai ficar.

Eu acho Dilma limitada não só em termos de gestão e condução – principalmente econômica – mas também acho ela limitada intelectualmente. O pessoal fala que é problema de oratória, mas acho que vai além. Por vezes, em seus discursos, ela parece não entender o que está falando. Quando vai dar exemplos, pode ser falando sobre o que tem dentro de uma casa ou explicando sobre o Zika para crianças, ela se perde em argumentos e exemplos simples. Em minha opinião, ela é muito fraca para o cargo que ocupa. Mas, até aqui, me parece íntegra. Não há crime comprovado – e as pedaladas fiscais acabaram sendo aprovadas, a meu ver indevidamente. Incompetência não é motivo para impeachment e pelo estado democrático de direito eu lutarei para que Dilma vá até o fim do mandato ou até que seja, realmente, implicada em crime.

O grande problema de tudo isso é que não há mocinhos mas há vários bandidos. É triste ver tantas pessoas cegas por paixões. O brasileiro acredita que precisa de heróis, tanto que Moro e seus métodos pouco ortodoxos – principalmente no episódio do grampo gravado e vazado – está sendo endeusado como Joaquim Barbosa fora há pouco. É um avanço ver tantos figurões sendo incriminados e alguns deles atrás das grades, mas só saberemos que foi justo, quando for para todos e hoje, infelizmente, tenho certeza que não é. A nossa justiça e a nossa mídia são extremamente seletivas e para isso há muitas provas (de vários suspeitos com investigações engavetadas e ignoradas) e todas elas públicas. É questão de correr atrás e se informar. Se houvesse um Moro para caçar Lula e, sem morosidade, outros Moros par caçar Aécios, Cunhas e afins, aí sim o Brasil estaria melhor.

Acho sim que o PT tem mais um projeto de poder e apenas um arremedo de projeto de Estado. Mas, ainda assim, isso também não é diferente do que temos como alternativa, o PSDB que também tem mais um projeto de poder, ainda que com um projeto de Estado mais claro, porém bastante danoso para os mais pobres.  A pauta política fica evidente com a urgência demonstrada pela presidenta na defesa de Lula quando de seu depoimento, com viagem para visita-lo presencialmente a toque de caixa, convite para ministro – um erro estratégico difícil de justificar ainda que tenham tentado e por aí afora. Falta ao Governo uma comunicação eficiente com as massas e uma articulação política mais talentosa. Pronunciamentos esclarecedores para a população com uma posição firme sobre a situação e as medidas sendo tomadas, punição interna a quem for necessário para demonstrar o comprometimento com a limpeza e articulação política para desmontar o que não está funcionando no congresso e no supremo – com apoio popular conclamado com base na prévia comunicação. Mas aqui eu divago, já que articulação, oratória e estratégia não tem combinado com a nossa presidência nos últimos anos.

Precisamos sim discutir política, nos interessarmos de verdade pelo tema. As pessoas nas ruas é um avanço. Mas temos que refletir, de forma individual, e termos nossas opiniões e convicções políticas independentes dos políticos sujos que hoje nos representam. Eles não nos merecem, mas para que isso seja verdade, nós temos que dar o exemplo, questionar sempre com argumentos e cobrar por mudanças e para que a direção seja a que nós acreditamos. A luta está apenas começando. Vamos substituir um herói individual pela liga da justiça. Instituições fortes e atuantes no lugar de pessoas que venham salvar a pátria. Essa mudança só vai acontecer se todos forem para a rua, unidos e um uníssono. E em paz. Uma sociedade diferente para termos um país diferente.

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