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Em um universo controlado a gente consegue misturar os ingredientes certos, nas porções corretas, seguir o passo-a-passo da receita e, ao final, ter um bolo tão delicioso quanto aquele da foto do livro ou do programa na tevê. Mas, quem já tentou sabe, nunca sai igual visualmente e quanto ao sabor, como saber?

No 171 de Hoje eu quero aproveitar o fato de que a gente nunca vai saber se o bolo ficou tão bom quanto o da tevê para falar um pouco sobre as nossas próprias vidas. Os ingredientes do nosso bolo não são os mesmos, as temperaturas dos ambientes não são as mesmas, os detalhes de cada passo nunca serão repetidos de forma idêntica e – ainda mais importante – o cozinheiro não é o mesmo. E, ainda assim, a nossa expectativa é de ter algo tão apetitoso, vistoso e, porque não, tão gostoso quanto o que imaginamos que a receita original seja.

Já pararam para pensar que seguimos essa mesma lógica de receita de bolo, absolutamente injusta e impossível de ser validada, ao pensarmos em receitas de felicidade ou de sucesso? Miramos histórias de outros, comparamos alhos com bugalhos, vemos fotos vistosas produzidas para serem exatamente isso: vistosas, sem nenhuma preocupação em serem fidedignas ou de fato amparadas na realidade. E, o mais importante, ainda que haja um papel importante ao ajudar a estabelecer metas e objetivos, não há como saber o sabor deste bolo/vida alheios. O nosso bolo é sempre o único que será tangível para nós e é nele que devemos aplicar nossas medidas de satisfação ou rejeição. Nunca teremos, na prática, acesso àquele bolo que nos inspirou a tentarmos fazer o nosso.

Afinal o que queremos em nossas vidas, qual é o nosso objetivo, que tipo de confeiteiros somos nós? Queremos fazer o bolo mais bonito para que todos o admirem? Queremos fazer apenas um bolo gostoso para que nossos amigos e família sejam bem servidos? Queremos fazer um bolo apenas porque podemos fazer um bolo? Queremos fazer um bolo para não morrer de tédio? Queremos fazer um bolo para poder gastar nossos recursos no supermercado para comprar os ingredientes – e de preferência os mais caros pois o resultado será um primor? Queremos fazer um bolo para dividir com os outros ou também para comer? Queremos fazer um bolo para garantirmos o melhor destino possível para aquele grão de trigo que virou farinha e agora cumpre seu destino? Queremos fazer um bolo para demonstrar que há ordem no caos, e que misturar e aquecer pode dar forma e estrutura diferentes a farinhas, líquidos e pós?

Na minha modesta opinião, ainda mais importante de saber o real motivo que faz com que cada um de nós façamos, ao decorrer de nossas vidas, o nosso bolo, é que a gente se pergunte esse porquê. É vital que todos nós não estejamos satisfeitos apenas em ir para a cozinha e roboticamente produzirmos bolo. Basta de autômatos, precisamos de confeiteiros pensantes, que se questionam sobre o porquê de fazerem bolos, sobre que tipo de bolos querem fazer e se realmente querem fazê-los.

Este texto mesmo é resultado desta pergunta que me fiz há pouco: porque eu vivo? O que eu espero alcançar com a minha existência, esta vida única que eu tenho o prazer e o dever de gozar? Eu aposto que os bolos ficam muito mais saborosos quando eles vão ao forno com um propósito e uma intenção. Bom apetite.

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