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Quando eu tinha entre 13 e 16 anos eu colecionei latas de bebidas. Antes disso, mais novo, eu já havia colecionado o que nós chamávamos de “dinheirinho” e na prática eram cédulas formadas por embalagens de cigarro devidamente alisadas e dobradas que davam para juntar em um maço que a gente pudesse folhear e contar, tal qual os adultos contavam dinheiro para pagar suas contas, nos filmes da sessão da tarde. E quanto mais raro o “dinheirinho”, mais valor ele tinha. Camel e John Player Special eram raridades valiosas lá em Costa Rica, onde eu cresci. Plaza e Hollywood equivaliam a poucos centavos. Também colecionei gibis, e tampinhas, e bolinhas de gude. E esta regra do valor proporcional à raridade é válida para toda coleção, das minhas latinhas ao mercado mundial de diamantes e outras pedras preciosas.

Este ano eu estava de novo na casa onde cresci e onde minha mãe ainda mora, de novo em Costa Rica, e uma vez mais ouvi minha mãe dizer que as latinhas ficam empoeirando em cima do meu guarda-roupas – e também do guarda-roupas do quarto da minha irmã, já que em determinado momento a coleção invadiu também o quarto dela. Minha mãe ocasionalmente, com o passar dos anos e depois de eu ter ido embora de casa, já há vinte anos, ainda alimentava a coleção colocando uma ou outra lata lá. Também ela guardava uma nostalgia pelas velhas latas empoeiradas, talvez pela lembrança da época em que morávamos juntos, talvez lembrança da minha infância, do menino que jogava bola na rua até tarde e vinha tomar banho suado e de pés descalços e encardidos.

Mas, este ano, eu finalmente a deixei se desapegar daquelas latas. E também eu tive que me desapegar. Olhei para várias delas que eu considerava como troféus, e imaginei um mundo em que elas não estão mais em cima daqueles dois guarda-roupas da casa da minha mãe. Um mundo em que tudo o que passou, passou. Selecionei aquelas que eu mais gostava, utilizei critérios como raridade – a edição especial da Coca-Cola para Rock in Rio II, por exemplo – ou representatividade – se peguei Kuat então também peguei Taí – e, para facilitar o transporte e com a ajuda de minha irmã, recortei uma a uma, para transformar aquela coleção de quinhentas latas em uns cinquenta recortes de alumínio a serem guardados em um álbum de recordações.

Eu me pergunto agora, já adulto, se ainda coleciono? Até pouco tempo atrás, a resposta seria certamente sim. Livros, DVDs, CDs e revistas em quadrinhos ocuparam o lugar das latas, bolinhas e dos “dinheiros” de embalagens de cigarros. Ao invés de encontrar os itens das novas coleções pela rua, agora os compramos. Hoje em dia, no mundo conectado e com a internet permeando o acesso a conteúdos dos mais variados tipos, me vejo colecionando podcasts ouvidos ou seriados assistidos.

É, eu sou um colecionador. Venho colecionando coleções por toda minha vida. Sempre algo que me chama particularmente a atenção e que vira objeto de devoção, de uma quase obsessão. Conseguir a próxima edição. Tique. Assistir ao próximo episódio. Tique. Ler o próximo volume. Tique. Ouvir a próxima discussão. Tique. Tique.

Da mesma forma que com as velhas latas de alumínio também quero paz de todas as coleções. Não quero mais colecionar, pois uma coleção dá uma ideia de que existe um conjunto finito de opções e que é possível explorá-lo por completo. E a vida não é assim. Colecionamos momentos e experiências, pessoas e lugares, pensamentos e sensações – e para nenhuma dessas coisas há limites, o universo é infinito e assim também é a coleção de nossas possibilidades.

Para não ser radical, quero manter a minha coleção de imãs de geladeira dos lugares que visito, pois, cada novo item desta coleção já significa uma nova experiência vivida. Se leio um livro ou vejo um filme, que seja por curiosidade ou por prazer ou para passar o tempo ou para aprender, mas não apenas porque ainda falta este deste autor ou desta série. Quero que como os imãs de geladeira, a coleção que eu faça daqui para a frente seja a de novos dias vividos com intensidade, dando o valor ao presente que o presente merece, buscando sempre a felicidade, novas experiências e aprendizados. Desta forma, cada novo item desta coleção vai ser o mais valioso.

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