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Sempre que a sua prefeitura, ou o governo federal, a nossa Pátria Educadora, ou mesmo o governo do seu estado anunciam medidas que envolvem educação, saúde, segurança, cultura, meio-ambiente, política fiscal ou obras, todos nós gostamos (ou deveríamos gostar) de comentar, de avaliar a viabilidade, a prioridade, a importância, a urgência de cada uma dessas medidas. Afinal é certo fechar escolas? Remanejar oitenta mil alunos em uma única canetada? Investir os recursos de segurança pública contra os alunos e pais de alunos que forem contra essas medidas? É melhor investir no ensino básico ou no ensino superior? Quantos novos postos de saúde e hospitais precisam ser construídos e médicos e enfermeiros contratados para equilibrar a proporção de médicos por cem mil habitantes? A redução de velocidade nas marginais Pinheiros e Tietê na cidade de São Paulo reduziram mesmo os acidentes e aumentaram mesmo a velocidade média? As chacinas promovidas em cidades periféricas dos grandes centros, com envolvimento da força policial poderia ser evitada? Como? Uma vez que Mariana aconteceu, porque nem iniciativa privada e nem os governos agiram de forma rápida e tempestiva para amenizar os danos ambientes e das vidas humanas impactadas?

Todos esses temas são muito relevantes e envolvem decisões que são tomadas por nossos representantes e também, em alguns casos, envolvem também decisores de algumas empresas. Mas, e quanto a nós, que estamos à margem disso tudo, podendo palpitar no dia a dia e votar a cada dois anos, como nós investimos os nossos recursos?

Para o farelo de hoje vou me atentar a três recursos que todos temos, em menor ou maior escala, e que usamos de forma absolutamente arbitrária, ou seja, somos os ditadores das decisões sobre como investir estes recursos: o nosso tempo, a nossa energia e o nosso dinheiro. Para que esta discussão fique ainda mais interessante, eu sugiro que cada um faça o exercício de tentar identificar quais são os três itens que mais consomem seu tempo, quais os três que mais consomem os seus recursos financeiros e, ao fim, em quais três você dispõe mais da sua energia. Está equilibrado? Itens como saúde e educação, que tanto cobramos dos governantes, estão na sua agenda? Você consegue ter energia para ler um livro? Tem como pagar e fazer academia, natação, um curso de línguas, uma pós-graduação?

Falando por mim, ao pensar um pouco a respeito notei que tenho andado muito desequilibrado. Minha energia e tempo estão alocados em sua maior parte ao trabalho e o restante ao lazer com a esposa, família e amigos. OK, isso é genérico demais e deve ser verdade para a maior parte das pessoas, mas no meu caso está desequilibrado pois tenho trabalhado por volta de 12 horas por dia – às vezes mais – e os fins de semana tem sido para tentar repousar e desfrutar, sem energia restante para outros interesses. É momentâneo, sempre reforço isso para mim mesmo, e ao fim desse período de transição no trabalho quero estar pronto para remanejar oitenta mil horas por dia dentro de mim e, por exemplo, poder esfarelar mais por aqui.

Quanto ao terceiro item para o qual dispendo mais tempo eu fico em dúvida se é acompanhar o campeonato brasileiro e o futebol em geral (vendo jogos, acompanhando debates televisivos e lendo portais de notícias), se é minha pífia participação em redes sociais, se são alguns joguinhos de celular que me entretém nas filas de espera supermercados afora. Mas não é nada relevante, já são as fatias pequenas da pizza. O meu terceiro ponto de fuga de energia, no entanto, é claro. E é justamente esse, a minha inquietação com esse desequilíbrio atual do uso do meu tempo, afinal onde estão os espaços para aprender a tocar os instrumentos que decoram a sala, para ler os livros que decoram a estante, para assistir a Netflix que decora a fatura?

Para fechar, o terceiro recurso que eu também gasto é o dinheiro. Agora que fugi do aluguel, creio que a maior parte dos meus recursos são alocados em alimentação – mas com regalias, tenho ido a mais restaurantes do que jamais fui em minha vida. Será o pecado da gula? Mas se eu estender a análise para os gastos acumulados em um semestre ou mesmo um ano é provável que os gastos com viagem, lazer e cultura – incluindo cinema, teatro e concertos – ganhem uma boa fatia e talvez até liderem o consumo do meu dinheiro. Não tenho carro, agora não pago mais aluguel… eu diria que minha tríade de investimentos é essa: lazer, alimentação e investimentos financeiros. É evidente que este ano com festa de casamento, reforma de casa, mudança e compra de mobiliário, eletrodomésticos e por aí vai é um ano atípico para essa análise. Com ou sem ano atípico, eu até acho que gasto bem meu dinheiro. Invisto em experiências, em coisas que me dão prazer e me fazem bem, sem perder de vista minha segurança futura para continuar vivendo bem.

Eu tento trabalhar a minha cabeça contra o consumismo, vivendo em um mundo do consumo. Sei que sou manipulado e sei que consumo muitas coisas das quais não preciso. E quero acreditar que seria tão feliz quanto sou hoje sem muito do que tenho. Um trabalho para preencher a mente e traçar desafios e conquistas, família e amigos por perto, sentados à beira de uma mesa compartilhada, um entardecer deitado em uma rede com um livro na mão e um sorriso no rosto há de ser suficiente. Como é para boa parte da população, principalmente longe dos grandes centros onde as posses valem mais do que a própria felicidade. Temos que investir mais tempo, energia e dinheiro de acordo com aquilo em que acreditamos, e essas verdades só cada um de nós pode encontrar.

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