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Se há 15 dias eu estava falando sobre o significado das mudanças pelas quais já passei hoje passei o dia, de fato, envolvido nos preparativos para de fato mudar. Mudar de endereço, sair daqui e ir para lá. É curioso como algo tão corriqueiro possa ser ao mesmo tempo tão trabalhoso e cansativo mas despertar, geralmente, sentimentos tão conflitantes quanto a ansiedade e o desejo do novo entremeados pela nostalgia do abandono, do dar às costas. Se é bonito lembrar dos bons momentos vividos em um lar, é também belo imaginar os outros tantos momentos a serem vividos no novo que amanhã me receberá de braços abertos.

Pois bem, para fechar esse assunto, vou narrar duas coisas interessantes ocorridas hoje comigo. As narrativas não têm nenhuma ligação entre si – exceto o fato de estarem todas conectadas à mudança.

Liguei para a minha operadora de cartão. Tinha duas solicitações, a primeira, obviamente, era alterar o meu endereço. A segunda era pedir uma segunda via do cartão, já que o meu plástico se quebrou recentemente. O resultado? Cartão cancelado. Motivo: eles só aceitam trocar endereço se eu tiver um comprovante de residência do novo endereço, no meu nome. Não aceitam se estiver no nome de outra pessoa – como no caso, estará. Eu argumentei que eu já respondi as perguntas de segurança, já estavam seguros de que eu era mesmo eu, mas, ainda assim, não podia dizer onde eu morarei de forma que eles confiem em mim. Nunca atrasei um pagamento, sou bom cliente, mas conseguiram me perder enquanto cliente em uma ligação em que eu só queria atualizar meus dados. Inacreditável.

A segunda história ocorreu agora há pouco. Praticamente todas as caixas já estavam fechadas, faltavam uns poucos papeis, as coisas dos banheiros e o meu baú de memórias. Como ele estava abarrotado de papel achei por bem dar uma leve organizada antes de fechá-lo, até para evitar perder algo de interesse. À medida que fui organizando, foi selecionando algumas coisas para guardar em outras pastas, fui até jogando algumas coisas fora, achei lembrancinha de nascimento da filha de uma amiga… que esse ano fará 13 anos! Mas o item que mais me chamou a atenção foi, na verdade, um pedaço de papel que eu mesmo escrevi em 2004.

Eu escrevi para mim mesmo fazendo uma projeção de futuro, um mantra, autoajuda ou coisa que o valha… não consigo me lembrar nem de ter escrito e nem do porque eu escrevi. Era uma carta em primeira pessoa dizendo coisas que eu queria ter ou ser. Eu dizia tanto coisas como “Eu sou reconhecido profissionalmente” ou “Eu tenho uma namorada a quem eu amo e que me ama” quanto “Eu tenho uma casa própria” ou “Eu tenho um carro”.

Por um lado, foi extremamente bizarro e quase embaraçoso me deparar com a minha própria insegurança de 11 anos atrás. Por outro foi bastante gratificante notar que hoje nada daqueles anseios, desejos ou possíveis frustrações me incomodam mais. Algumas pois eu realmente sinto que fui bem-sucedido na vida profissional e pessoal e hoje posso ler aquelas afirmações e me sentir tranquilo de que eu vivi intensamente aqueles desafios e me sinto realizado. Com outros itens eu me sinto ainda mais feliz e tranquilo por saber que eles deixaram de ter qualquer importância. E é curioso notar que o prazer das realizações não é mais saboroso do que o das mudanças de percepção. É bom deixar de precisar de algo, seja de afirmação, seja de auto-aceitação, seja de provas para você mesmo ou para os outros. Faz parte de tornar-se mais leve.

Tentando então ligar as duas histórias eu diria que se a vida te mostrar desafios que não valem a pena ou estradas que estejam dificultando demais a sua trajetória normal, apenas “cancele”. Se não acreditam em você lembre-se que, em muitos casos, basta você saber que está dizendo a (sua) verdade e seguindo seu caminho.

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