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Waze e as realidades paralelas

Waze e as realidades paralelas

Minha namorada tem uma relação de amor e ódio com o Waze. Sim, ele mesmo, o aplicativo dos smartphones que te ajuda a tirar do trânsito mais pesado, a saber de antemão de acidentes ou obras em seu caminho e a acompanhar o trajeto de alguém que está vindo te apanhar em casa, dentre tantas outras facilidades. É que ela conhece profundamente as rotas, avenidas, ruas e vielas da cidade onde morou desde sempre. Para os trajetos que está mais habituada, como de casa para o trabalho e vice-versa, conhece não só um mais vários caminhos alternativos, adaptando-se assim conscientemente às variações como vésperas de feriado, férias, dias de chuva ou dias de rodízio.

Portanto, trata-se de uma motorista proficiente com uma ferramenta poderosa nas mãos e é ai que entra o conflito. Eu já acompanhei várias vezes os embates entre os dois. Há vezes em que o Waze indica um caminho que não era o que ela estava pensando e ela reclama dizendo que não faz sentido. Outras vezes o caminho é o que ela faria e então ela reclama se encontra tráfego. Às vezes ela está seguindo o caminho indicado, porém contrariada imaginando que o outro teria sido melhor.

Estou aproveitando essa situação vivida por minha namorada com relação ao Waze para ilustrar algo que, apesar de óbvio, é poderoso. Toda decisão que tomamos cria uma situação com suas sequencias e inviabiliza infinitas outras que poderiam ter sido. Toda vez que ela decide seguir a recomendação do Waze e fazer o caminho indicado por ele, ela só pode imaginar como teria sido o outro caminho, aquele que estava em sua cabeça. Ela, em geral, pensa que ele seria sempre melhor, sem tráfego, mais rápido. Mas só se ela tivesse se dividido em duas e seguido, em paralelo, os dois caminhos é que ela teria essa certeza. As chances são grandes de ela se surpreender encontrando um caminhão travando o trânsito ou uma obra ou uma blitz no outro trajeto, aquele que ela não percorreu e que, portanto, vive apenas em sua imaginação que o idealiza.

Esse é o fato inefável. Só vivemos a nossa realidade, que é construída instante após instante pelas decisões que tomamos, sejam elas conscientes ou não. As outras realidades paralelas das ações que nunca tivemos, das palavras que nunca dissemos, das situações que nunca experimentamos, não existe a não ser em nossas mentes. Bem, talvez o Griffin de Homens de Preto 3 discorde e diga que todas elas existam simultaneamente e só nos falte a habilidade de enxerga-las. Pode ser, há físicos teóricos com suas teorias de cordas, supercordas e multiversos que também recaem na existência de realidades paralelas – mas nestes casos acho que o peso das micro-decisões humanas não teria tanta relevância.

Há ainda as infinitas realidades futuras, aquelas que dependem do que fizermos agora e no desencadear das ações e reações que disso decorrem. Como só há uma realidade para cada pessoa e ela depende de cada decisão nossa a cada instante isso significa, sim, dizer que podemos sempre começar tudo de novo, que nunca é tarde para nada e que hoje é um dia tão bom quanto qualquer outro para fazermos aquilo que achamos importante. Só há o agora. E esse é um pensamento também óbvio, mas, ao mesmo tempo, difícil de ser vivido.

Enquanto isso, o Waze segue indicando milhares de caminhos aos seus usuários…  Para isso ele segue uma lógica cartesiana e toma decisões puramente determinísticas. Nós podemos segui-lo ou não, conduzir apenas seguindo o que nos é indicado ou então questionar e arriscar nossos próprios caminhos… nós podemos sonhar e transformar nossa realidade.

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