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Eu, você, todos nós vivemos em um país capitalista – ainda que tantos queiram ver e dizer tantas coisas sem fundamento. Naturalmente, somos estimulados ao consumo desde muito cedo. Neste 171 aproveitarei o espaço para pensar sobre como eu mesmo e também pessoas que eu conheço se relacionam com essa entidade tão presente em nossas vidas: o Comércio!

Recentemente eu passei por uma situação um tanto pitoresca que, certamente, já afligiu tantos outros: o vendedor esquizofrênico. No meu caso específico, era um vendedor de móveis planejados, mas em qualquer situação em que haja um serviço de pós-venda essa figura poderá ser encontrada. A esquizofrenia se dá da seguinte forma, conhecemos primeiramente a personalidade amistosa, sorridente, convidativa, solícita e gentil antes de comprarmos e ela dura até a entrega dos cheques e a assinatura do contrato. A outra personalidade, difícil, arredia, seca e intransigente fica guardada para as situações seguintes, quando ocorre qualquer imprevisto ou problema nas etapas seguintes à venda.

É sério, não dava para acreditar que eu estava sendo atendido pela mesma pessoa com quem eu tinha assinado o contrato, tamanha a mudança não só na forma de atender como até na fisionomia. Ocorreu por um problema simples, a altura do quarto era, na realidade, 20cm mais alto do que havíamos previsto no pré-projeto. Eu, sinceramente, queria aproveitar do fato para ter um armário ainda mais espaçoso no quarto e estava disposto a arcar com a diferença que seria cobrada… não estava pronto era para a cara fechada, as poucas palavras, o uso do famoso “é pegar ou largar” para propostas que não faziam tanto sentido assim e iam na contramão da negociação fácil e fluída que tivéramos menos de um mês antes com aquele mesmo ser humano. Estou seguro – e neste mesmo pedido tive exemplos disso – que não haveria devolução caso os 20cm fossem a menos e não a mais. O que fazer, não é verdade?

O vendedor esquizofrênico é apenas mais um na enorme diversidade da nossa fauna. Mas o excesso de consumo, que leva ao consumismo desenfreado, também afeta a outra ponta, nós, os clientes, os compradores. E há espécimes muito exóticos, mas que paradoxalmente não correm nenhum perigo de extinção. Quer exemplos? Vamos lá.

O cliente carente é aquele que compra não movido pela necessidade de um objeto, uma experiência, uma facilidade… ele compra para saciar uma carência. Na maioria das vezes, senão sempre, trata-se de algo inconsciente. Em muitos casos, é carência de atenção e, nestes, a interação com um “vendedor amigo”, outra espécie comum, torna as coisas ainda mais instigantes. É normal haver uma fidelização, compra-se sempre no mesmo estabelecimento e até mesmo sempre com a mesma pessoa. Cria-se um vínculo. Esse fenômeno de acasalamento fica ainda mais notório quando, ao entrar em uma loja, um cliente é saudado pelo nome e atendido aos sorrisos saudosos. Muito mais do que o que será comprado, o que conta nestes casos é essa experiência VIP – que é o equivalente à “gourmetização” do atendimento ao cliente.

Há ainda o cliente inocente, aquele que paga uma fortuna por um serviço, mas chega em casa todo satisfeito mostrando o brinde que “ganhou” e que mostra o quanto aquela empresa se preocupa com ele e se interessa pela sua vida. Este cliente é capaz, dentre outras coisas, de acreditar que pequenos mimos em hotéis, restaurantes ou outros estabelecimentos são cortesias extremamente pessoais, que demonstram, de novo, a sua própria importância enquanto clientes. São inocentes justamente por acharem que são só eles quem estão sendo contemplados ou que o que foi ofertado não foi devidamente embutido no preço dos serviços.

Nem quero pintar aqui um retrato anticapitalista. Não é esse o tom. Muito mais do que o modelo econômico de um país estou interessado no efeito desse modelo em nossas vidas, em nossas atitudes, em nossa personalidade. Vivemos um período em que ter é mais do que ser. Na minha opinião, isso é triste. Experiências valem mais do que coisas e ponto. Carrão na garagem apertada é, justamente, resultado de valores invertidos, do status pelas posses, do julgamento da imagem acima do valor. A importância do outro perde-se a cada nova compra desnecessária, em um mundo com tanto a ser feito para diminuirmos as desigualdades.

Nem quero pintar aqui um retrato pró-socialista. Não é esse, tampouco, o tom. Mas gostaria que bons padeiros, bons pedreiros, bons policiais, bons professores, pudessem viver bem, como vivem bons empresários, bons banqueiros, bons médicos e bons engenheiros. Todos são importantes em uma sociedade. E é uma pena vivermos em uma sociedade em que a felicidade é vendida como sua aparência, seus bens, seu patrimônio – o que é uma armadilha e uma falácia. Que além disso haja uma enorme discrepância entre as diferentes atividades das pessoas. E que com isso tenhamos ótimos padeiros formados em cursos de direito e prestando concurso público para fecharem a porta da pobreza (e da riqueza).

O comércio nos oferece de tudo, mas tem ainda um monte de coisa que a gente não consegue comprar, valores como honestidade, gratidão, sinceridade e paixão. O grande problema é que vários deles a gente vende… para o próprio comércio.

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