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Hoje eu quero falar do meu violão. Não, não do objeto mas da minha relação com ele e de tudo o que ele significa para mim. Eu estava, dia desses, sentado no sofá, com o meu violão nas mãos, tocando e cantando e, naquele preciso instante, uma analogia muito interessante me veio à mente. Há, para mim, um claro paralelo entre a relação de pais e filhos e a relação que eu estou tendo com o meu violão, à medida que eu aprendo a tocá-lo. E isso é mágico e, por isso, quero dividir com vocês.

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Quando a gente tenta pegar o violão no colo pela primeira vez chega a ser embaraçoso. Ele não se encaixa em nosso corpo, parece que vai cair, não sabemos como segurá-lo direito. Nem parece que é nosso. E o pior, não importa o que a gente tente fazer, ele não para de chorar. O som é gritante, estridente. Só quando ganhamos segurança e o seguramos mais devagarinho, nota a nota, é que ele dá pequenos sorrisos, mostrando que gosta é de atenção, de carinho. Mas se a gente tenta fazer cócegas ou brincar de pique, não é gargalhada que recebemos, mas gritos e reclamações.

O tempo vai passando, vamos nos habituando, vai-se pegando o jeito. E quando vemos, lá pelas tantas, o nosso violão já não chora tanto. Muitas vezes, como foi o meu caso, a primeira palavra que ele aprende a falar não é “papai”, mas dá um orgulho imenso de vê-lo falando. E o violão fala em nosso ritmo, diz aquilo que o ensinamos a dizer, na cadência que fomos capazes de aprender. Afinação, notas, acordes, escalas, compassos, tempo, ritmo, cadência, não é pouca coisa o que um pai tem que aprender se quer ensinar bem as coisas a seu filho.

O mais apaixonante é justamente isso, à medida que vemos que o violão está, sim, aprendendo. As suas palavras, as suas músicas, saem cada vez mais soltas e sentimos, com empolgação, vontade de ensiná-lo a cantar todas as músicas que mais gostamos. Aquelas que guardamos em um lugar especial em nossos corações. São essas, as mais especiais para nós, as que queremos vê-lo entoando em alto e bom som, cantando conosco os refrões que nos marcaram. É o filho seguindo a carreira do pai. É revigorante, é uma experiência que não deixa de ser uma bela troca entre o aprendiz e o seu instrumento, após um bom tempo de maus tratos (o período inicial), a bem vinda recompensa pelo esforço e tempo dedicado nos exercícios, na prática, na repetição.

Chegará então o momento crucial em que ele, o filho, o violão, quererá ter sua própria voz, escrever suas próprias canções, expressar-se, ganhar independência, enfim, ser. E é por esse momento que anseio a cada dia e, acredito, não há orgulho maior para nenhum pai do que ver seu filho, finalmente, andar com suas próprias pernas. É para isso que faço, hoje, o melhor que posso, ansioso que já estou por um dia saber o que ele terá a me dizer. Serei eu, então, o seu veículo e será através de mim que diremos ao mundo coisas novas, novas combinações de acordes, de ritmo, de poesia. A arte, afinal, é viva. E é vida.

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