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Mais uma vez, foi assim, meio que sem querer, de forma um tanto corriqueira que o tema do 171 dessa semana se apresentou para mim. No mesmo dia, três pessoas diferentes, em situações distintas, viraram-se para mim e disseram “É a vida, né?”. Essa coluna, que trata do cotidiano, não podia deixar que algo tão pitoresco passasse despercebido. Afinal, é a vida, né?

O que é mais curioso é notar que, via de regra, a famigerada e tão usada expressão vem para finalizar alguma narrativa em que há uma tragédia, um problema, uma situação improvável ou indesejável. Alguém diz: “Ah, mas meu chefe não consegue enxergar nossas virtudes, ele sempre delega mal e cobra mais errado ainda… é a vida, né?”. Ou ainda “Nós testamos essa solução em diversas situações, mas não em todas. Se você testar em alguma diferente das que avaliamos e falhar… fazer o quê, é a vida, né?”.

Change of Scene

Quando ouvi algo desse tipo em uma roda de amigos, não resisti e perguntei se todos acham mesmo que suas vidas são assim tão miseráveis. Ninguém me entendeu. Ao menos não de imediato. A expressão é tão desgastada que não parece, nunca, estar falando de nossas vidas, essas vidas de verdade que vivemos todos os dias, essas que fazem com que façamos escolhas, umas certas, algumas outras erradas e tantas e tantas indiferentes para o grande plano astral das coisas. Eu fui além e perguntei a eles – e a mim – se alguém já usou a expressão após algo de realmente virtuoso e grandioso ter acontecido. Alguém aí já ouviu algo como “Puxa, que ótimo, acabei de ganhar milhões na loteria… é a vida, né?” ou ainda “Meus amigos e minha família realmente me amam e respeitam, é a vida, né?”. Por mais que o segundo caso seja verdade na maioria dos casos, o mais comum é ouvirmos a sua antítese, isto é, o “é a vida, né?” aparecer na narrativa de alguém que tenha problemas de desrespeitos ou desamor vindos da família ou amigos.

Indo um pouco além, o nosso antropocentrismo nos faz colocar o Homem como o ponto focal de análise do mundo. Mas quando falamos de vida acredito que ainda temos muito a evoluir no nosso entendimento de que não há vida apenas para a nossa espécie. E termos a humildade em aceitar que todas as demais são também importantes, ainda que não haja chefes ou loterias – até onde se saiba – permeando as suas decisões diárias.

Mas o fato é que sim, a vida é bonita, e é bonita. Apesar disso, o copo meio cheio realmente perde, no nosso corrido e cansado dia-a-dia, para o copo meio vazio, esse que empresta um negativismo, às vezes travestido de realismo, às nossas vidas. Afinal, quantas são as dores e alegrias de uma vida, jogadas na explosão de tantas vidas, como já dizia mestre Marcelo? E a vida é isso aí, é muito mais equilibrada do que parece. Estou certo de que na média, apesar de todas as reclamações e lamentos, somos muito mais felizes do que tristes se considerarmos um dia qualquer, um ano qualquer, uma vida inteira qualquer. E isso é a vida, é o prazer de estarmos lutando, correndo atrás, vencendo os obstáculos, nos provando o tempo todo. Né?

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