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Sabe aquela bela história de amor sobre o rapaz pobre chamado Pedro que nasceu em Aroazes, no Piauí, mas conseguiu ganhar um concurso de soletração, foi estudar no Rio de Janeiro com uma bolsa e lá encontrou Julia, a garota burguesa que, a princípio, não queria nada com ele, mas depois descobriram que nasceram um para o outro, que se complementavam de uma forma incrível e que, após um tórrido namoro contestado pela família dela, casaram e constituíram linda família, com filhos que adoram visitar os avós paternos no interior do nordeste brasileiro para mostrar a eles as suas fotos de surfista? Não? Pois é, é porque ou ela é a história ficcional tão vendida em novelas e folhetins ou então porque ela é uma rara exceção à regra de que conhecemos os “amores da nossa vida” em nossas relações cotidianas, no dia-a-dia… em geral, ele não está em outro estado e nem em outro país, não está em outra classe social ou qualquer outra coisa que o deixe distante. Ainda que, hoje, a internet e a conectividade aproximem as pessoas e as ajudem a formar novos casais, de maneiras mais improváveis do que antes.

Hoje eu quis olhar um pouco mais para o fenômeno da formação e da consolidação de novos casais. Estava ouvindo Fernanda Takai, em sua doce voz, cantar a sua versão de A Pobreza (Paixão Proibida), que diz “que todo mundo tem, um amor na vida, e por ele tudo é capaz… eu tenho uma paixão, que é proibida, só porque sou pobre demais”. Lá pelas tantas, a letra diz “Nosso amor é tão bonito, mas seus pais não querem a nossa união, acham que a pobreza é lixo, e que rapaz pobre não tem coração”. É a música sobre o rapaz de Aroazes. E, por mais que seja politicamente correto dizer que a diferença social não deveria atrapalhar o amor de acontecer, a verdade é que na maioria dos casos Pedro e Julia nem iriam se conhecer. E, caso se conhecessem, provavelmente não se interessariam um pelo outro. E caso se interessassem, o abismo de hábitos, as cobranças que provavelmente Pedro faria a si mesmo e fariam a ele, teria boas chances de colocar tudo a perder. Essa seria a regra em uma situação assim. E a história de sucesso de um hipotético casal Pedro e Julia é apenas a exceção que a confirmaria.

O que em geral acontece, na verdade, é que os casais se formam em ambientes de estudo ou de trabalho, que favorecem o convívio das pessoas por um período de tempo mais duradouro. Ou através de amigos comuns, em eventos sociais. Ou ainda em baladas, que são eventos mais pontuais, que proporcionam encontros mais curtos e até direcionados para o romance, mas aquele de curta duração e com outro apelo. Tendem a ser mais efêmeros – ainda que também com suas exceções que confirmem a regra. Assumam que minha opinião tenha um pouco de razão e que essa argumentação faz sentido. Neste caso, a sua tal “cara metade”, a “tampa de sua panela”, não é alguém predestinado a você, que pode estar por aí em outro país, em outro estado, frequentando outros círculos, mas sim alguém que vai passar a conviver com você, porque vai estudar com você – na faculdade, em um curso de línguas ou de dança – e vai chamar a sua atenção, despertar o seu interesse e com quem você vai se relacionar. Se não for dividindo a sala de aula, poderá ser dividindo o escritório. E assim as pessoas vão se unindo.

E, pensando bem, ainda bem que assim seja… o mundo já passou dos 7 bilhões de pessoas. Suponha que você acredite em amor à primeira vista e que saiba identificar, só de bater o olho, se uma pessoa é ou não o seu verdadeiro amor… e vamos considerar apenas pessoas com mais de 15 anos (ainda que ao incluir esses mais jovens eu peça a paciência de se esperar alguns anos até as maioridades serem alcançadas). Pois bem, a população mundial de 15 a 54 anos é de aproximadamente 4 bilhões de pessoas. Se você tivesse 1s para olhar cada um dos 4 bilhões de candidatos, poderia levar até 126 anos para achar seu parceiro… isso se eu ignorar os novos candidatos que iriam aparecendo no meio do caminho, ainda que os óbitos pudessem compensá-los. OK, se eu for mais conservador e olhar para o Pedro em busca de uma Julia, em um novo casal heterossexual, ainda assim lá se iriam 63 anos de busca. Supondo que os deuses do amor deem uma ajudinha restringindo nosso par a pessoa do sexo oposto e do mesmo país, ainda assim um rapaz no Brasil que gastasse um segundo olhando no olho de cada uma das 60 milhões de candidatas de 15 a 54 anos, levaria quase dois anos nessa busca… sem comer e dormir. É inviável.

Muito melhor é saber que, na prática, nosso universo de candidatos está restrito às pessoas que conhecemos em nossas vidas. Aquelas com quem estudamos, aquelas com quem trabalhamos, aquelas com quem convivemos devido às amizades que fazemos e ao nosso círculo familiar. São essas poucas centenas de pessoas que, de fato, contém aquele ou aquela que será o nosso par. E ao desmitificar o tal “parceiro ideal” ou “príncipe encantado” (mas nunca encontrado), ou a “mulher dos meus sonhos” e coisas do gênero, acho importante também transferir responsabilidade para nós mesmos, tanto nas nossas escolhas quanto no nosso comportamento. Se os candidatos são as pessoas, essas, as de sempre, as de todo dia, talvez caiba a nós sermos sempre, a todo momento, o melhor de nós mesmos com todos. Nunca se sabe se estamos fechando a porta, de maneira desavisada, para nossa cara metade, não é mesmo? Melhor não correr o risco.

No fundo, no fundo, eu só acho que a gentileza deveria prevalecer com todos. E que isso abre portas e nos prepara para o bem. E o bem e a virtude trarão pessoas boas e virtuosas para nosso convívio. E é no nosso convívio que fazemos as relações que levamos para toda a vida. E que assim, singela e ingenuamente, todos seremos mais felizes. Sem ter que fazer tantas contas e viver olhando um segundo no olho de cada novo estranho que entra no elevador.

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