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No último fim de semana eu fui a um casamento de amigos. A cerimônia ocorreu em uma bela igreja e o padre, católico, realizou o rito usando o clássico juramento que pede a cada noivo para dizer ao outro que o recebe e promete ser fiel, amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de nossa vida, até que a morte nos separe.

Votos-de-casamento

Naquele momento, vendo os dois noivos repetindo os votos matrimoniais, eu decidi que seria aquele o tema do 171 de hoje. E o motivo não foi a inerente emoção que tais palavras sempre causam – acho festas de casamento muito intensas, bonitas e emotivas. A escolha se deu por conta do uso dos opostos no voto e também do triste e convencional encerramento, citando a morte em um momento tão cheio de vida.

Quando eu ouvi os votos eu senti falta de mais um par de opostos, o “na pobreza e na riqueza”. Ele não foi dito pelo padre e hoje quando pesquisei notei que ele não é canônico, não faz mesmo parte do juramento. Nem sei porque eu achava que ele devia estar lá, mas curiosamente hoje vi de relance, na TV do elevador, uma reportagem que dizia que o “aumento de poder aumenta as taxas de infidelidade”. E as duas coisas estão relacionadas. Então, sendo assim, vou considerar em minha análise, a seguir, a versão estendida dos votos, que inclui também a questão das variações de renda do casal (ou dos indivíduos que o formam).

Pois bem, as duas pessoas se conheceram, se apaixonaram e decidiram que uma vida a dois, compartilhada, fazia mais sentido do que continuarem com o foco mais individual. E decidiram se casar, construir uma família, juntar os trapinhos ou as escovas de dentes, dividir o mesmo teto. Na prática, no mundo moderno, o que isso significa a meu ver é apenas a mudança de foco do eu para o nós. O compromisso com o outro passa a ser maior e para todas as decisões individuais há alguém ali, o outro, que passa a ser diretamente impactado.

A fidelidade, o amor e o respeito pelo outro não dependem – ou não deveriam depender – do ato do casamento. São valores que devem ser cultivados em todas as nossas relações, independentemente de seu status. É, portanto, curioso que a gente se sinta confortável em ver tais valores serem reafirmados até mesmo para os casos em que hajam variações entre saúde e doença ou saúde e doença – ou a riqueza e a pobreza e até mesmo a beleza e a feiura. É curioso mas nem tanto, é apenas uma constatação de que aquele voto significa lutar contra o oportunismo, o egoísmo e a vaidade tão comuns em nós, os seres humanos.

Ora, se o padre nos diz para mantermo-nos fiéis e respeitosos na saúde (parece fácil) e na doença, é porque muitos casais chegam ao fim quando um deles cai enfermo e passa a necessitar de cuidados e atenções especiais. Se a tristeza acomete um, não é difícil ver as cobranças e exigências para que a alegria volte ao invés do abraço terno e da tentativa de ajudar o companheiro a voltar a sorrir. Se há um enriquecimento financeiro que privilegia mais um do que outro, não é difícil ver cobranças e abusos começarem a surgir do lado favorecido, que passa a se julgar “mais” em uma corrupção moral de valores digna de pena. Se uma pessoa engorda, enruga ou perde os cabelos, não é difícil imaginar que possa ser substituída por outra mais magra, jovem ou com longos cachos. Porque, o padre bem sabe, à medida que as coisas mudam também mudam os gostos e os sentimentos das pessoas e os votos ali sendo jurados podem não valer nada no futuro – e aquele casal pode ter um fim antes que a morte os separe.

A meu ver o próprio voto já deturpa tudo. Amor e respeito devem ser a premissa e a quebra desses dois pontos deve sim permitir o fim da relação. Porque esperar a morte atrelado a um relacionamento se não há mais amor ou respeito? E, por outro lado, se houver amor e respeito não há variações financeiras, estéticas ou de saúde que farão com que o laço se rompa. Pelo contrário, em geral se fortalece nas dificuldades, no apoio e conforto que tal amor e carinho dão.  Eis assim minha versão dos votos: “eu te recebo como esposa(o) e espero amá-la(o) e respeitá-la(o) e ser amado(a) e respeitado(a) para os restos de nossos dias e que tenhamos sabedoria e amizade sempre para sermos felizes independentemente de fatores externos ao nosso amor e respeito e que saibamos entender e aceitar caso assim não o seja”. Acho mais honesto e não menos bonito.

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