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kidbooks1 Há algo mágico em se ler. Na infância, é algo que, ao menos na minha época, a gente ansiava por experimentar. Queríamos saber ler, para ler placas na rua, para ler gibis, para ler rótulos de embalagens, para poder assistir filmes legendados. Ler abre portas, expande horizontes.

Eu tenho algumas manias enquanto leitor. Gosto, por exemplo, de ver a quantidade de páginas que o livro que estou lendo tem e de imaginar a trajetória de leitura em duas fases. A primeira e a segunda metade. Na primeira, imagino que estou escalando uma montanha ou subindo uma escada, degrau a degrau, passo a passo. Até chegar lá no alto e então começar a minha descida, de volta à realidade. É como se enquanto eu estiver subindo, eu esteja vivendo com aqueles personagens, partilhando seus segredos e suas vidas… e que a volta ao chão represente, então, um fim de percurso, de aventura. É uma imagem que me ajuda. Já me vi pensando se eu ainda estava “subindo” ou se já estava na “descida” de uma história e, inexplicavelmente, isso me confortava e me dava um norte.

Uma outra imagem que sempre tenho é dos meus momentos de distância do livro. Para mim há uma magia acontecendo na minha frente à medida que vou lendo, passando os olhos pelas palavras de cada capítulo. Os personagens vão se movimentando, vivendo, tomando decisões, dizendo coisas, agindo. E assim que eu paro de ler, tirando os olhos da página, eles ficam lá, parados, imobilizados, paralisados pela minha distância. É como se eu tivesse esse poder divino de parar o tempo. Eu controlo o pausar e o continuar das ações dos personagens… mas ao mesmo tempo é um poder apenas de espectador, já que o que de fato farão já está lá, escrito e definido. Não há como mudar, como interferir, como aconselhar. Esse poder cabe ao escritor. Podemos até desistir da história, deixar todas aquelas pessoas em suspenso, com seus destinos por ser, indefinidos. Mas isso não é justo com eles. Não temos esse direito. Por isso, quando começo um livro, eu tenho que terminá-lo, para que aquelas vidas cumpram seus destinos – satisfazendo ou não aos meus caprichos e vontades.

Outro ponto instigante na leitura é imaginar o que não é dito. Como não podemos interagir com aqueles seres imaginados, não há como perguntá-los o que sentiam, o porque fizeram o que fizeram, os motivos de uma reação, os questionamentos naturais que colocamos sempre que nos contam uma história. Ali não há como obtermos as respostas que não são dadas. E eu, como leitor, aproveito-me disso para dar minha própria contribuição àquela construção. Imagino eu mesmo complementos, adições, explicações. Completo, em minha cabeça, boa parte da personalidade daqueles personagens que mais me cativam. E esse é um outro grande prazer da leitura.

Escada, montanha, pausa na ação, esses são apenas complementos imaginados para essa grande aventura que é o aprendizado e o prazer que só um livro pode trazer. Estudar é ler. Aprender é ler. Mas ler também é desfrutar, ensinar, contar, perpetuar, reforçar. Ler nos torna, naturalmente, mais inteligentes, confirmando o estereótipo, pois nos força a uma reflexão que nenhuma outra atividade pode. É um estímulo direto ao pensar. A abstração a que ela nos obriga, ao não oferecer imagens, sons ou outros estímulos, cuida disso. Não sou especialista e estou certamente falando bobagem, mas creio que o fato de lembrar-me de vários detalhes de livros que li há mais de uma década e não conseguir lembrar tantos detalhes de outras coisas que assisti na semana passada não são ocasionais. Usamos o nosso pensamento abstrato ao ler e, com isso, imagino que estimulamos regiões do cérebro e, mais particularmente, da memória, de maneira muito mais acentuada do que o que ocorre com outras mídias, como vídeos.

Esta reflexão é escrita. Se tudo correr bem, estará sendo lida. E isso é mágico. Muito obrigado por fazerem esse texto cumprir seu objetivo mágico. E partam daqui para outras terras mágicas, altas ou baixas, não importa, escalem à vontade.

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