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Uma não-notícia que correu hoje em todos os portais de esportes é a de que Diego Simeone, argentino, treinador do Atlético de Madrid e eleito o terceiro melhor treinador da temporada 2013-2014, não aceitaria treinar a seleção brasileira (ele é argentino, caramba!) e nem o Real Madrid (ele treina o arquirrival da mesma cidade, caramba).

E essa é uma não-notícia pois, além de ser algo pouco relevante, ainda é uma notícia criada. Explico: jornalistas estão entrevistando o técnico. Conversa vai, conversa vem, aquela rotina de sempre, a cobertura do jogo importante contra o Barcelona, até que um jornalista mais esperto pensa “vou criar uma notícia bombástica” e sai com a pergunta: “Se você tivesse o contrato dos sonhos, perfeito do ponto de vista financeiro e profissional, mas fosse para treinar o Brasil ou o Real Madrid, o que você faria?”. O jornalista não escolheu essas duas alternativas à toa. Simeone foi símbolo da seleção portenha nos anos 90 e duelou várias vezes – com mais vitórias do que derrotas – contra o Brasil. É atual técnico do outro time da cidade de Madrid, o Atlético, e disputou com o Real a final da última Copa dos Campeões da Europa – além de ter ganho contra o rival o título da temporada passada. O jornalista sabia que Simeone não ia se sentir confortável tendo que escolher um dos dois rivais. Queria polêmica. Queria gerar notícia. E conseguiu, apesar de ter ouvido uma resposta bastante educada e sucinta: “neste caso, eu teria que abrir mão do dinheiro”. Pode até nem ser verdade, mas é a coisa certa a ser dita. Pode ser que diante de uma oferta real, e não de um flerte absurdo vindo de um “jornalista”, Simeone considerasse seriamente o cargo.

Pois bem, corta para o Brasil e sua imprensa e vejam as manchetes geradas.

No UOL: Nem por todo dinheiro do mundo Simeone treinaria Brasil ou Real Madrid;

Na Globo: Real Madrid ou Brasil? Diego Simeone brinca: “Neste caso fico sem dinheiro”

No Terra: Simeone descarta treinar Brasil: nem por salários ilimitados

Na Folha: Não treinaria Brasil ou Real Madrid por dinheiro algum, diz Simeone.

O título mais honesto é o da Globo.com… veja você. Ele não disse que não treinaria o Brasil ou o Real Madrid por dinheiro algum… e muito menos algo mais enfático como “Nem por todo dinheiro do mundo”. Muito menos por salários ilimitados. A pergunta foi feita supondo um salário MUITO BOM, pela melhor condição possível… mas não foi colocado desta forma um tanto mais agressiva. Lendo as manchetes, dá a impressão de que Simeone acordou com o pé esquerdo, cheio de raiva do Brasil e do Real Madrid, e saiu dizendo que nunca, em hipótese alguma, nem por todas as fortunas imagináveis, os treinaria. Assim gratuitamente.

É bobo, mas é mais um exemplo de como devemos ficar atentos às manchetes. Elas podem ser boas para atrair cliques e, com isso, vender anúncios. A imprensa tem precisado vender, nem que seja a custa de sua credibilidade.

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