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Cine 42

Desde 2012 um novo capítulo de Jogos Vorazes (The Hunger Games) chega às telas do cinema. A trilogia de livros virou uma trilogia de filmes em quatro partes (!!), como virou moda recentemente, ao dividir o último episódio em dois.

Jennifer Lawrence que apareceu muito bem e chamou a atenção em papel dramático em Inverno da Alma (2010) e ganhou o Oscar por O Lado Bom da Vida (2012), vai se consolidando também como estrela nerd da nova geração ao viver a Mística dos novos filmes dos X-Men e a improvável heroína Katniss Everdeen destes Jogos Vorazes.

Eu não li aos livros mas assisti aos três filmes na última semana, sendo que A Esperança – Parte 1, vi nos cinemas pois ainda está em cartaz. Há spoilers nos textos dos dois primeiros filmes, mas não do terceiro. Os filmes não são espetaculares mas mantém todos um bom nível, equilibrando drama, romance e suspense com seu futuro distópico opondo os distritos pobres e produtores de matéria-prima e a rica Capital onde todos são frívolos, fúteis e perfumados.

Eu não li A trama gira em torno dos tais Jogos Vorazes, um reality show à la O Sobrevivente, filme da década de 80 com Schwarzenegger, em que um casal de representantes dos 12 Distritos é sorteado como oferenda para participar de um combate em que 24 tributos, como são chamados, entram e apenas um sai. Para tal, os “escolhidos” são preparados por vencedores de edições anteriores, como o bêbado e cínico Haymitch (Woody Harrelson). A ideia é lembrar a todos os efeitos traumáticos de uma rebelião dos distritos contra a Capital, ocorrida há mais de 74 anos, para que todos saibam valorizar a paz e os sacrifícios necessários para mantê-la.

O primeiro filme é uma grande sátira aos reality shows como o Big Brother. Eu apostaria até que os livros foram concebidos a partir dessa ideia central: observar pessoas escolhidas ao acaso e vê-las destruindo-se, afinal a “vida” delas pouco importa frente ao entretenimento que pode dali ser extraído. Não são poucos os elementos explorados para passar esse recado: mudanças de regras durante o jogo, o estímulo à formação de casais, a formação de alianças entre os participantes para prolongarem sua vida no jogo e a ansiedade natural para observar essas alianças se desfazendo e as traições que daí surgem, a preferência da audiência conduzindo a privilégios aos participantes mais queridos, e por ai vai. A película, no entanto, vai além da banalidade ao embalar a já interessante crítica aos tais shows de realidade em um contexto político bem embasado, com personagens secundários que conferem realidade àquele mundo, como o presidente Snow (Donald Sutherland) e sua ameaçadora condução política visando a manutenção do status quo e o espetacular Ceasar Flickerman, o manipulador de emoções que atua como apresentador da emissão, o Pedro Bial do filme, vivido de maneira brilhante por Stanley Tucci.

Vale ressaltar que vários dos elementos que serão explorados nas sequencias, como o tordo (mockingjay, em inglês) e seu canto como símbolos da união entre os distritos. Além dele, também em momento de forte emoção logo no início do filme é plantado o gestual coletivo de levar as mãos ao peito e depois erguê-las com os dedos levantados ao alto, como um símbolo da luta contra o sistema e suas regras. Esses elementos são vitais para a segunda parte, de subtítulo “Em Chamas”, que trata basicamente de propaganda de guerra e manipulação de opinião.

Neste segundo volume, a situação quer fazer uso da imagem de Katniss para controlar eventuais insurgimentos contra seu poder. Quando notam que as coisas estão fugindo ao controle, organizam uma nova edição dos Jogos Vorazes que contarão apenas com tributos que sejam ex-vencedores ao invés de novatos. Uma manobra para trazer Katniss de volta à arena, ela que foi a única vencedora vinda do 12o. Distrito, e acabar com sua imagem de mártir, além de matá-la, é claro.

Katniss é um personagem interessante. Mulher forte, emocional e extremamente fechada em seus pensamentos. Cuida de sua irmã pequena como se fosse mãe, tendo em vista que esta ficou em estado catatônico quando da morte do marido e também precisou ser amparada. Encontra em Gale, que é obviamente apaixonado por ela, mais um amigo do que um amante. Mas não se desfaz dele enquanto investe também na paixão surgida durante as primeiras edições dos Jogos por Peeta, o outro tributo do 12o. Distrito com quem acaba se relacionando. Katniss não quer ser uma heroína, ela quer apenas salvar os seus, ela reage quando necessário mas nunca espontaneamente, visando ser o destaque ou salvar o dia. Neste sentido, é uma anti-heroína, pois não age deliberadamente com a intenção de salvar a todos. E é por conta também disso que o uso de sua imagem passa a ser algo tão curioso de se observar, tendo em vista do quão importante que ele passa a ser tanto para o Governo quanto para a Rebelião que está nascendo.

Esses desdobramentos são, justamente, o que o novo filme nos trás. Após destruir a redoma da arena ao final do segundo filme, Katniss é resgatada pela Aliança Rebelde para lutar contra o Império, quer dizer, o governo totalitário de Panem… mas vou escrever um Cine 42 específico para A Esperança quando assistir também a parte dois…

PS: A sintetização de seres orgânicos (árvores e lobos gigantes), durante os jogos do primeiro filme, são um exagero que poderia ser evitado.

PS2: Não deixa de ser corajoso um filme voltado para esta faixa etária que é calcado no conceito de jovens matando-se uns aos outros. Algumas das mortes são bastante impactantes ainda que sangue seja mostrado com moderação.

PS3: O grande Philip Seymour Hoffman somou-se ao elenco nas partes 2 e 3 e o último filme foi dedicado a ele. Merecido.

PS4: Lenny Kravitz tem um papel de destaque nos filmes. E é um dos menos espalhafatosos moradores da Capital. O que será que isso quer dizer?

Cine 42 - 3 de 5 Pipocas

 

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