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chaves 0É isso mesmo. É isso, isso, isso. Infelizmente cabe a mim estar aqui de teclado na mão enquanto 2014 segue fazendo seu arrebatamento. Primeiro foi Robin Williams, que apesar de ter também tido uma importante carreira dramática era um estupendo e histriônico humorista. Ele provavelmente disse, lá do outro lado, “Sigam-me os bons” e o resultado é que cá estou para o requiém ao mexicano Roberto Goméz Bolaños, o criador e interpréte do Chaves do 8 e do Chapolin Colorado, dois ícones de várias gerações (e os memes do Facebook com o vermelhinho não me deixam excluir sequer a geração atual). Certamente os leitores do 171 de hoje não contavam com a minha astúcia.

Bolanõs se vai, mas claramente sua obra fica, tendo em vista que trata-se de personagens e esquetes roteirizadas entre a década de 70 e 80 e que atravessaram outras décadas sendo exibidas, com bastante sucesso, em toda a América Latina e também na Espanha. Trata-se de  um humor simples mas não simplório, capaz de entreter crianças e adultos com seus personagens cativantes, bordões repetitivos mas que viram mania e um estilo que alternava o pastelão (e a clássica pancada que sempre recebia o Sr. Barriga é o maior exemplo disso) com o non-sense, com direito a vários episódios que ficaram marcados na memória de tantos.

Muitos podem pensar que a obra sobreviveu (no Brasil) pois o SBT insistia nas eternas reprises dos episódios mas é, a meu ver, justamente o oposto. Foi a emissora de Silvio Santos que sempre se via sem alternativas mais atraentes do que a eterna obra de Bolaños. Mas palma, não é necessário cânico algum quanto a este assunto, tendo em vista que El Chavo del Ocho continua a ser sucesso também fora do Brasil e ai a equação torna-se mais evidente. O SBT não é o responsável por eternizá-lo. Em 2011 o programa ainda era exibido regularmente em mais de vinte países. E durante os anos 2000 o programa foi transformado em um desenho animado, para falar mais diretamente ainda com o público mais infantil. Um estupendo sucesso desde os incríveis índices de 350 milhões de telespectadores semanais que a emissão alcançava nos anos 70.

A primeira memória que eu tenho do Chaves foi, ainda criança, quando visitei meus tios e primos no interior de São Paulo. Na cidade onde eu morava o sinal do SBT (ou TVS, como também era chamada) não chegava. Ali eu presenciei o ritual da família se reunindo, pouco antes, durante ou após o almoço, dependendo da precisão do cozinheiro, para assistir a mais um episódio das séries. E ali eu ainda não tinha a dimensão do que eu estava vendo. Depois de alguns anos o SBT chegou até a minha pequena cidade e eu pude também criar meu próprio ritual e ver o fascínio pelo Chaves e, especialmente, pelo Chapolin despertar e crescer em mim. Dois dias antes do falecimento de Bolaños, comprei uma camiseta do Chapolin… parecia que eu suspeitava desde o princípio. Mas não, o acaso é que estava se aproveitando de minha nobreza.

A verdade é que este texto é pequeno, enquanto homenagem, e só reflete o quanto sou burro e mereço um zero. Eu sei que jogar frases clássicas do seriado não faz jus a genialidade de Bolaños e sua obra. Como bom mexicano, sua vida pessoal foi também um melodrama, ao roubar a namorada do colega Villagran, com quem também disputou até a morte os direitos sobre o personagem Quico (ou Kiko, sei lá).  Mas eu pouco, quase nada, sei sobre Bolaños, o homem. E não me importa muito. Tá bom, mas não se irritem. Conheço Chaves, Quico, Sr. Madruga e Chapolin. E é isso que importa e muito.

Depois da morte há sempre muita comoção, a todos parece necessário ter uma opinião a respeito. Uns idolatram, outros cometem insensibilidades. Li comparações com Chaplin. Assim como o gênio britânico, conhecido como Carlitos, Bolaños tinha um apelido pelo qual era conhecido: Chespirito. Li comparações com Chico Anysio e assim como o gênio brasileiro, o mexicano criou vários personagens marcantes e com bordões que são repetidos e reconhecidos onde quer que sejam ditos. Mas não há porque comparar. Cada um tem seu espaço, sua obra, sua vida e a vida não requer medidas, métricas, maiores e menores. Ninguém tem paciência comigo quando eu digo esse tipo de coisa, parece um esoterismo, um comunismo, uma utopia. Mas é a mais pura verdade, somos todos do mesmo tamanho… a não ser que alguém tenha tomado uma pílula de nanicolina…

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