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coelho-brancoA pergunta do dia é esta, que dá título a este 171. Quanto custa um atraso? A resposta óbvia e nada útil é o clássico “depende”. E depende mesmo. Para a noiva, no dia do casamento, custa um charme, custa um tabu, custa uma tradição. Para o concurseiro, em dia de prova,  custa meses de dedicação. Para o espermatozoide, custa a chance da procriação. Para a menstruação, custam 9 meses de gestação. Para a empresa de logística, custa credibilidade. Para os médicos e afins, parece não custar nada, mas sim render, visto ser prática generalizada. Para o Barrichello, custa uma zoação.

Não há desculpas. O texto estava previsto para hoje cedo, só está saindo agora ao final do dia. Atrasou. Mas há algo mais charmoso e pomposo do que usar o próprio atraso como assunto do próprio texto e, desta forma, fazer com que ele deixe de ser um problema e vire a solução? Mais do que isso até, ao publicar um texto sobre o peso do atraso com um enorme atraso, simbolicamente já trato do tema, preparo o eventual leitor, antes mesmo de escrever a primeira palavra.

A relatividade do custo de qualquer coisa vale também para o tempo. O que são 8 horas em um ano? Em uma vida? Mas vida de quem, afinal, vários organismos têm ciclos de vida de algumas horas, tantos mais de poucos dias.  O atraso pode ser o tempo que parou mas não parou, como os vários minutos que deixamos de perceber passar enquanto assistíamos TV debaixo das cobertas, até já ter passado a hora de chegar no nosso compromisso. O atraso pode ser o tempo que parou e parou mesmo, como os minutos intermináveis presos no trânsito à espera de um metro de espaço abrir-se à frente para poder fazer a perna já adormecida voltar a trabalhar. O atraso pode vir na forma do tempo que voa, como o papo vibrante com aquele amigo de longa data que a gente não encontrava há séculos, mas que nos faz chegar em casa bem além do horário previsto. O atraso pode ser o momento errado de partir, como o atacante que só vai em direção à bola tarde demais, para vê-la passando caprichosa em frente à meta, oferecendo-se mas impossível de ser alcançada… por um segundo que seja.

O atraso está presente em nossas vidas de diversas facetas. Cabe a nós saber como lidar com ele. Se sou eu o atrasado, cabe tentar prevenir as pessoas que porventura estejam me aguardando, propor alternativas para diminuir o transtorno causado, acelerar ao máximo para chegar logo. Se sou eu quem aguarda, cabe manter a calma, talvez tentar um contato para me informar e ter uma previsão e aproveitar a companhia das outras pessoas, ou até a minha mesmo, se estiver sozinho, para que o tempo que se passa aguardando seja o mais agradável possível. Essa tarefa pode não parecer tão fácil – e não é mesmo – mas se considerarmos o tempo que passamos aguardando, acho que deveríamos mesmo pensar e criar estratégias para que esse tempo não se transforme em um problema.

O melhor atraso, no entanto, é aquele por quem ninguém espera. O atraso que ninguém percebe, que não faz diferença. Este é o atraso sem culpados, sem vilões. É o atraso do vulcão para entrar em erupção. É o atraso do ladrão em escapar da prisão. É o atraso do 171, até esta publicação.

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