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Eu morei bastante tempo em Campo Grande. Mudei para a cidade morena em 1997, tinha 19 anos. Lá fiz a graduação e o mestrado em Ciência da Computação, ambos na UFMS. Vivi perto do Hospital Universitário, em kitnet que fChá Noiseoi palco de tantas histórias, celeiro de tantas amizades que duram até hoje. Morei perto da avenida Bandeirantes, morei no centro, na rua 26 de Agosto, morei no Tiradentes, nos Novos Estados, no bairro Sóter. Aprendi a conhecer e a gostar desta cidade onde passei treze anos de minha vida.

O 171 de Hoje é um relato sobre algumas reflexões que tive em minha última visita a Campão, no início de junho. Eu fui a trabalho mas aproveitei a ocasião para ir assistir a um show da banda Chá Noise. A banda é um dos expoentes da interessantíssima safra musical autoral local, que também tem Dombraz, Louva Dub e Sofia Basso, dentre outros. Já no ano passado, quando assisti à primeira apresentação do quinteto na Concha Acústica do Parque das Nações, foi mágico ver o espaço todo ocupado e a galera cantando junto as músicas, em uníssono, todos na mesma sintonia, ligados naquele balanço. E é bonito ver como os moleques dão conta, como eles sabem cantar e a sinergia entre público e artistas é notória.

Nesta última ocasião – meu terceiro show da banda – eles fecharam uma noite musical no 21 Bar, que também teve o “veterano” Jerry Espíndola e sua banda Pétalas de Pixe. Teve também Dani Black, mas isso é melhor deixar para lá. O que vale a pena ser dito é que a casa estava cheia, quase um ano depois do show inaugural (aquela da concha), nada mudou… ou, se mudou, mudou para melhor… A galera foi e aguardou para curtir música por música e vários, como eu, quiseram comprar o CD “O Flow do Gurizinho”, lançado recentemente. Mas dá para baixar de graça pela internet e eles também já tem um mini-documentário e clipe da música de trabalho, tudo disponível no YouTube.

OK, mas que tipo de reflexão foi essa? Fiquei pensando no quanto o público de Campo Grande mudou e hoje aceita e valoriza o trabalho de Xaras, Adrian, Anédio, Gleyton e Jorge Jungle e de todos os demais artistas locais com o mérito que eles merecem. Não é fácil ser artista independente em lugar algum e o fato de o público campo-grandense ter abraçado os seus cria um espaço e uma cena cativantes. Hoje, perto daquele mesmo HU onde morei, há o Rockers, um bar-conceito, voltado para esses artistas e seu público. E assim há outras iniciativas, espalhadas pela cidade. A Cultura borbulha por lá, houveram revitalizações no centro e criação de áreas comuns mais atrativas, ciclovias e, até mesmo, a vila multi-tema (agora com a Copa) nos altos da Afonso Pena e a construção do Aquário do Pantanal começam a dar uma identidade ainda mais forte à cidade.

Porém, na contramão disso tudo, foi muito triste ver um genérico Bob´s onde antes havia a tradicional Sorveteria Cacimba. É triste ver a cidade cada vez mais tomada por Subway´s e Habib´s e comemorando-se a chegada do Porcão, em terra de Gaúcho Gastão. Não há, nisso, avanço algum. Sei que na visão (interiorana) de muitos, a modernização da cidade se dá justamente quando o global, as marcas das multinacionais ou de nacionais muito tradicionais, das cadeias de lojas, das franquias, começam a pipocar a cada esquina. Mas eu, romanticamente, acredito no exato oposto. É fortalecendo o particular, o próprio, o único, o exclusivo, o nosso é que criamos uma cultura, uma identidade digna de ser chamada disso. Se é assim com a música local, por que não seria com a gastronomia e com o comércio, por que não?

Esse foi, enfim, o pensamento agridoce de ver santos de casa fazendo milagres mas, logo após o culto, os seus fiéis saindo para comemorar no Drive thru do McDonald´s ao invés de irem ao Áquila…

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