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foto 3Para os amantes da bola, como eu, a Copa do Mundo do Brasil começou no Dia dos Namorados. Desde a última quinta-feira, 12 de junho, e até o próximo dia 13 de julho, seremos os hóspedes da maior competição de futebol do planeta, que ocorre de quatro em quatro anos e consagra jogadores e equipes para a História do esporte mais praticado e adorado do planeta.

 

Eu tive o prazer de estar no estádio de Itaquera e assistir tanto a abertura da Copa quanto a difícil, sofrida e conturbada vitória da seleção brasileira sobre a Croácia. Foi muito emocionante fazer parte deste momento, vivenciar os gols de Neymar, a festa de abertura Padrão FIFA, as reações do público antes, durante e depois do jogo.

 

Início, meio, fim. Nascimento, vida e morte. Antes, durante e depois. Introdução, desenvolvimento e conclusão… Se formos pensar nos três atos em que dividimos quase tudo na vida, estamos agora vivendo o meio, a vida, o durante, o desenvolvimento desta Copa do Mundo. Enquanto escrevo este 171 está tendo Copa, apesar das ameaças prévias. Valeu a pena receber a Copa? E quais serão os legados por ela deixados quando chegar o seu fim? Essas são perguntas complexas, para as quais as respostas são também complexas, multifacetadas. Mas vou procurar pontuar uma ou outra opinião para preencher esse espaço quinzenal com o que o momento mais pede: Copa do Mundo.

 

Há quase sete anos, quando fomos escolhidos sede da futura Copa de 2014, eu celebrei pela oportunidade mas nunca imaginei que sediar a Copa fosse resolver nossos problemas políticos ou estruturais. De minha parte, houve sim decepção com a forma como as coisas ocorreram, com o “que tinha para roubar já foi roubado” da Havelange, com os vai-e-voltas do Ronaldo, com o oba-oba midiático, com o despertar oportunista do “Gigante” e as ameaças que sempre povoam o evento desde o ano passado. A meu ver, torcer contra supondo que “quanto pior, melhor” só revela o quão míope podemos ser. É quase como bater com um martelo em uma ferida aberta e esperar que assim ela cicatrize. Os novos estádios de Manaus, Cuiabá e Brasília são desnecessários e absurdos. Em Recife e São Paulo deveriam ter sido feitas reformas em estádios existentes e não novos estádios. Muito dinheiro foi desviado, a FIFA aplicou suas próprias regras e ignorou as nossas – levando nossa soberania junto. O famoso Padrão-FIFA se instalou como sinônimo de algo de qualidade, que deveríamos exigir também para serviços como Educação e Saúde, os dois que sempre são mencionados quando se quer questionar qualquer governo.

 

Este foi o clima turbulento do pré-Copa, desde a Copa das Confederações no ano passado. Tão turbulento e com ameaças de se “parar o Brasil” que o movimento “Não Vai Ter Copa” se fortaleceu nas redes sociais. Houveram greves, algumas oportunistas, outras justas e procurando ocupar o espaço que os holofotes da Copa produzem. Mas a Copa está acontecendo e, ao menos dentro de Campo, está sendo um sucesso, com muitos gols, festa e, até aqui nenhum incidente mais sério em termos estruturais ou da organização.

 

Contudo a Copa começou com jogo do Brasil e ali houve algo, a meu ver, inaceitável, feio, ridículo. Sei que há vários defensores das vaias a Dilma, mas o que houve ali não foram vaias, que seriam muito mais aceitáveis mas, ainda assim, desrespeitosas. Um país que enche a boca para dizer que não há investimento em Educação, e que só através dela é que saíremos da situação em que estamos e alcançaremos outro patamar, é, curiosamente, capaz de demonstrar toda a sua falta de educação e desrespeito pela democracia ao xingar a nossa presidente, nosso representante, eleito pelo voto popular, em um evento internacional.

 

Ainda que mais da metade das 60 mil pessoas que lá estavam (e não eram tantos, longe disso!), ainda assim xingar em coro alguém, que é uma agressão verbal, uma ofensa criminosa, trata-se de um desrespeito tanto à própria Dilma quanto a outros simpatizantes dela que pudessem ali estar e que nela votaram. É um desrespeito à maioria que a elegeu. É um desrespeito a quem está insatisfeito com o governo mas tem espírito democrático. É como dizer e pensar “meu voto vale mais do que o de vocês e eu tenho o direito de demonstrar minha raiva e insatisfação”. Se hoje a maioria da população repudia o governo Dilma, o palco para demonstrar isso não é a abertura da Copa do Mundo, mas sim as urnas na eleição democrática que também vai ocorrer nesse ano. Não permitir que a presidente fizesse a abertura oficial da Copa, deixando esse papel a cargo do locutor do estádio em fria narração, mostra uma falta de educação e um desrespeito que as pessoas não se dão conta.

 

Política não é jogo de futebol, não é preciso ser um contra o outro, não é necessário ter vencedores e perdedores. Precisamos de trabalho conjunto, de continuidade, de visão mais de estadistas e de planos de governo ao invés de planos de poder. E, neste quesito, estamos mal de opções. Mas estamos mal também por nossa própria responsabilidade, pois não cobramos quem devemos e quando devemos. Todas as grandes manifestações contra a Copa datam do último ano. Somos politizados apenas quando há holofotes? Mudamos de ideia e nos abstemos das responsabilidades assumidas quando nos parece conveniente, como o próprio “ídolo” Ronaldo que fazia parte do Comitê Organizador e, há um mês do evento, vira a casaca?

 

Falando agora do pós-Copa, infelizmente o legado de infra-estrutura que muitos aguardavam, com aeroportos maiores e mais modernos, trem-bala ligando Rio e São Paulo, mais metrô e outras melhorias no transporte público já deixaram de ser sonhos. Houveram avanços mas muito aquém da expectativa que havia sido gerada lá, há 7 anos… Se esse legado não vai ficar, e se sobrarão inegavelmente elefantes brancos e cofre cheio para a FIFA, isso não é tão grave quanto o pensamento cada vez mais corrente no Brasil de que está sempre tudo errado e que não dá para mudar a nossa realidade.

 

Não está tudo errado e dá sim para mudar a realidade, mas isso exige se envolver de verdade com os problemas que temos, estuda-los e propor soluções ou ao menos cobrar aqueles que propõem ou deveriam propor soluções, nossos representantes eleitos. Temos que ajudar a priorizar os problemas que devem ser resolvidos em nosso bairro, em nossa cidade, estado, país… Só assim, com essa mudança, teremos Saúde e Educação e todo o resto com o que sonhamos para todos. Depende de nós muito mais do que percebemos e está mais do que na hora de enxergar isso. E, por incrível que pareça, não é xingando presidentes e sendo desrespeitosos com a democracia que essas coisas mudam. Muito pelo contrário. Mais do que o Hexa, eu queria um choque de politização. Isso faria de nós verdadeiros campeões.

 

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