Tags

, ,

vicio em mobileCaminhava tranquilo pela rua, a mesma rua que tomava todos os dias em direção ao seu curso. Um pouco para aproveitar o tempo livre, gostava de concentrar-se, no trajeto, em limpar a sua caixa de entrada de e-mail. O pessoal e o profissional, é claro. Aproveitava também para responder as pendências do WhatsApp, incluindo enviar aquela mensagem engraçada para o grupo de amigos virtuais, uma galera super legal e parceira, mas que na verdade ele não faz ideia de quem sejam.  Aproveita os cruzamentos para também se atualizar do que os amigos espalhados pelo globo andavam fazendo. Aproveitava também para futricar no que a ex-paquera anda publicando e se está saindo com outra pessoa ou não. Gostava, particularmente, de curtir fotos que inspiravam nele a vontade de viver um dia melhor, de valorizar as coisas mais simples. Essas mensagens de auto-ajuda são sempre legais de se curtir, afinal, quem não quer ter um dia melhor?

Depois de quase morrer atropelado neste trajeto tão conectado com o dispositivo em suas mãos e tão distante de tudo e todos que o rodeavam, eis que ouve um chamado seguido de uma mão que o segura pelos ombros.

-Augusto! Há quanto tempo, diz a pessoa. Não demora muito para que se lembre de onde o conhece. Era alguém do seu primeiro emprego, como se chamava mesmo? Ah, sim, era o Pedro. Isso, Pedro. Ainda um pouco tímido, responde:

-Pedro, como vai? Faz tempo, hein?, e ensaia um sorriso amarelo. Não entendam mal, não é que Augusto não gostasse de Pedro. A verdade é que eram amigos, relativamente próximos, à época de colegas. Sempre se entenderam. Eram os dois são-paulinos. Casaram-se mais ou menos na mesma época. Muita coisa em comum. O incômodo ocorreu porque Pedro o interrompeu no momento em que ainda lia uma longa conversa da galera de desconhecidos do WhatsApp… ele estava quase chegando ao fim da discussão que não lhe dizia respeito e não tratava de nenhum assunto de maior relevância.

  • Pois é, nem parece que moramos na mesma cidade, não é mesmo? E ai, o que você conta de bom?, devolveu Pedro. Pronto, interrompeu a marcha para não ser indelicado. Virou-se de frente para o amigo e começou a explicar algumas amenidades recentes ocorridas em sua vida. Estava gostando do novo trabalho, estava fazendo um MBA, se preparando para ser cada vez mais competitivo no mercado de trabalho. A esposa ia bem. E, como é de praxe, perguntou de volta como iam as coisas com o outro.

  • Ah, você sabe. Continuo trabalhando por lá mesmo. O Genésio não mudou nada, tem o lado bom mas, você sabe bem, tem o…

E olhou rapidamente o celular. Continuou tentando ouvir o que era dito, mas a vontade de saber se tinha outra marcação em vermelho sobre algum dos ícones dos seus aplicativos favoritos falou mais forte. Nada tinha mudado, até porque fazia apenas poucos minutos desde que deixou de interagir com o aparelho e, além disso, não havia sentido nenhuma vibração no celular. Ergueu novamente a cabeça.

  • … em casa também, tudo bem. As crianças estão cada vez maiores, você tem que fazer uma visita. Você vai ficar impressionado…

Pronto, o aparelho tremeu. Agora é certo que tem alguma coisa ali. Tanto pode ser a continuação do bate-papo da galera do WhatsApp… quanto pode ser um e-mail super importante do trabalho. Augusto não esperava nenhum e-mail super importante do trabalho, até porque já era noite e seu expediente já havia se encerrado. Mas disse:

  • Pedro, desculpa. Só vou verificar aqui o meu e-mail, estou esperando uma mensagem importante do trabalho. E rendeu-se a olhar de novo ao celular. Não era nem o WhatsApp e nem o e-mail, era o Facebook. Não se conteve e abriu. Um cantor que ele segue acabara de publicar um novo videoclipe. Demais, curtiu para lembrar-se de ouvir depois quando tivesse tempo. Virou-se novamente para Pedro, que a essa altura também olhava para o seu celular, compenetrado. Aproveitou a situação e carregou novamente o WhatsApp, esperou a imagem que demonstra que está havendo uma conexão com o servidor girar, girar e girar, até apagar-se e ele ter certeza de que nenhuma mensagem nova havia chegado. Disse então a Pedro:

  • Verdade, temos que nos ver mais, né? É que a vida anda tão corrida.

  • Pois é, verdade. Mas não é desculpa, você tem meu e-mail, meu facebook… vamos combinar, poxa.

  • Sim, vamos. Mas antes de ir embora, deixa eu fazer um selfie aqui com você. Abraçou então ao amigo, mirou a sua câmera para os dois e clicou. Poucos segundos depois, a foto estava publicada no Facebook com a seguinte mensagem: “Como é bom ver e encontrar grandes amigos! É nessas horas que a gente nota o enorme valor das amizades verdadeiras”. Os dois curtiram.

Anúncios