Ações de hoje – é tudo o que existe

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Eu vou me repetir e sei que é cansativo, mas mais uma vez, hoje, fui levado ao pensamento de que só existe hoje e só as ações é que valem. Planejamentos, sonhos ou devaneios, bem como memórias, boas ou ruins, fazem parte do que somos, mas não podem ser aquilo que mais valorizamos.

Vejam, por exemplo, o próprio site “Esfarelado”… está sem uma atualização sequer há meses. Se alguém me perguntar se eu o abandonei, a resposta será rápida e certeira: “mas é claro que não, pelo contrário, eu tenho vários planos… o Esfarelado vai ganhar um canal de vídeo. Teremos um podcast para falar e analisar as minhas músicas favoritas. E o site vai ser transformado em uma revista digital, totalmente responsiva”. Pois é, tudo isso são planos e sem ações, hoje, todos os dias, não vão passar disso, de ideias em minha cabeça. E à medida que os hojes vão se acumulando em forma de ontens e anteontens, sem ações, nada muda e a última postagem no meu site ainda não responsivo foi em novembro… e já numa fase minguante, já que até mesmo a colaboração quinzenal na coluna 171 Todo Dia foi também interrompida.

E não adiantaria eu ter dito que amanhã este texto estaria pronto, pois não estaria. Eu tenho que escrevê-lo e publicá-lo hoje, já. E é o fato de escrevê-lo e publicá-lo, e não o fato de pensar nele, é que faz com que ele esteja aqui, neste espaço, disponível e servindo o seu propósito de registrar as coisas que são importantes para mim, de uma forma organizada em que eu mesmo e qualquer outro interessado – os eventuais leitores – possam ler. É isso que vale. É só porque as palavras foram digitadas, lidas e revisadas, e ao final o botão “publicar” do WordPress foi apertado que esse desabafo veio parar por aqui.

E é só com atitudes similares a esta que também poderá haver um canal de vídeos, podcasts, novos textos. Eu sou apaixonado por esta ideia, mas ela não pode ser só uma ideia. Só existe o hoje e as coisas só acontecem se a gente age. Não há mistério, mas há procrastinação – ou outras prioridades.

Recentemente eu recebi mais de 13 mensagens de parabéns pelo LinkedIn pelo aniversário da criação do Esfarelado. A data é aproximada, na verdade refere-se ao aniversário de publicação do meu primeiro post em meu blog, que na época tinha outro nome. Mas foram vários parabéns pelo aniversário de uma ideia que já está na adolescência, e há amigos que ficaram felizes em saber que ela ainda existe. Está na hora de esse adolescente formar personalidade e começar a pensar no futuro. Mas não só pensar…

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Não devo fazer nada para ser livre para fazer tudo

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Quais são as coisas que a gente realmente deve fazer?

Escrever aqui, por exemplo, não é uma obrigação. Então eu não devo fazer. Faço por vários motivos, mas o dever não é um deles – ainda bem. Havia, sim, um compromisso em escrever quinzenalmente para o site http://campogrande.net, um compromisso com uma amiga querida que intercala comigo as colunas semanais do 171 Todo Dia deste “periódico” virtual. Mas já não publico lá há bons dois ou três meses… fora as vezes em que perdi uma ou outra coluna ao longo destes mais de três anos de publicações.

Não escrever por escrever é leve pois permite que ao escrever eu tenha algo a dizer, ou no mínimo vontade de dizer alguma coisa. Mas também isso seria uma amarração perigosa, pois são várias as situações em que eu só quero escrever, escolher as sequências de palavras que eu acho que melhor vão representar as confusões momentâneas daquele momento, daqueles pensamentos. Isto é a materialização de meus farelos. É assim que eu encontro sentido neste espaço e neste compartilhamento que é, também e principalmente, muito para mim mesmo.

Portanto, quando retomo a pergunta que, propositalmente, fiz de forma mais ampla: quais são as coisas que a gente realmente deve fazer? Eu tendo a acreditar que a resposta deveria ser similar. Nada. Não deveria existir nada que seja premissa ou que seja obrigatório. O próximo passo não deveria poder ser previsível, deveria ser sempre uma reanálise do nosso momento, levando em contas as variáveis de sempre, nosso interesse no mundo, o contexto e as circunstâncias, as consequências previsíveis, os riscos, os ganhos, os prós, os contras, os desejos e as vontades, os sonhos. Se eu não devo fazer nada, então eu sou livre para não fazer nada ou para fazer tudo. E isso é libertador.

 

Rocky Spirit

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Em um mundo tomado por pessoas com valores corrompidos, movidos por busca de dinheiro e poder, que desvalorizam educação e cortesia, que preferem parecer a ser e que se importam mais com seus benefícios ainda que custe sofrimento alheio, há um reduto. É claro que nada é passível de generalização infalível, mas eu creio que pessoas ligadas a esportes de aventura são diferentes. Talvez pelo contato próximo com a natureza (surfe, montanhismo, mountain bike, dentre outros, proporcionam isso). Talvez pelos desafios inerentes às atividades, que reforcem o compromisso com os nossos limites e como superá-los. Ou talvez seja apenas uma idealização.

Porém, eu que não posso me considerar um esportista de aventura, talvez apenas um aventureiro, conheci gente fantástica ligada a esse mundo. Tanto amadores, como a minha esposa, o meu amigo Edson e os seus filhos e vários colegas do meu trabalho… mas também, mais recentemente, gente profissional como o fantástico Manoel Morgado (ouça esta entrevista com ele feita pelo Esfarelado), a incrível Karina Oliani ou o Pemba Sherpa, os três com cume do Everest no currículo. Gente que parece se importar mais com valores como gentileza, sinceridade, conexão e respeito com a natureza e com a humanidade em cada um de nós.

Não foi, portanto, surpresa para mim o conteúdo dos curta-metragens exibidos ao ar livre, no último sábado a noite, no festival Rocky Spirit. Muitas histórias de superação, diversão e importância no que é importante: família, viver a vida, ser feliz da maneira mais simples possível.

O festival começou com o biker Danny MacAskill fazendo coisas incríveis neste divertido vídeo:

Foi representado também pelo brasileiro Vozes Interiores, que trata do importante tema que afeta todos nós: como lidar com as vozes interiores. Para vários esportes individuais, atingir a meta tem mais a ver com saber lidar com elas do que com o desafio físico. Isso vale para mim, para você, para todos nós.

Depois somos apresentados ao personagem John Shocklee, um instrutor de esqui que fez da paixão pela neve a sua orientação na vida. Para uns, ele pode ser considerado quase que um pedinte, alguém que realmente vive com o mínimo… mas certamente ele não parece arrependido de suas escolhas e feliz com aquilo que a vida deu.

Mantendo a temperatura baixa, conhecemos a finlandesa Johanna Nordblad, no belíssimo curta que acompanha um de seus mergulhos livres sob o gelo. É de arrepiar, em todos os sentidos.

Em seguida, Ditch the Van conta a história do músico Ben Sollee, que percebeu que ao movimentar-se entre as cidades para fazer as suas turnês com uma van, ele estava deixando de vivenciar devidamente tudo aquilo… passava por vários locais, mas não conhecia nenhum. Queria mais. E abriu mão de dinheiro e conforto por uma alternativa mais lenta e mais cara (por poder encaixar menos shows no mesmo período de tempo): ir de bike. E assim cuidou da saúde, conheceu inúmeros locais, comendo e se hospedando em pequenos vilarejos entre as cidades nas quais se apresentava e conectou-se muito mais com seus companheiros de banda (que aderiram!) e consigo. Um espetáculo. Infelizmente não encontrei o curta, mas tem alguns videos no Youtube sobre o músico e o seu projeto.

Em seguida assistimos ao documentário feito por Karina Oliani sobre o Nepal e o projeto Dharma, sobre a amizade nascida entre ela e o seu guia nepalês Pemba Sherpa, que a levou duas vezes ao cume do Everest, pela face sul em 2013 e pela face norte em 2017, pelos projetos humanitários (construção de escola, ajuda médica, dentre outros) nascidos desta amizade… é um belo documentário, com lindas imagens, que trata de solidariedade e amizade de forma tocante.

O curta seguinte foi também espetacular. Os viajantes do tempo, um grupo de amigos que se dedica a um ambicioso projeto: bater o recorde de velocidade na descida do rio que corta o grand canyon. O recorde anterior é de 37 horas e eles tem que realmente se preparar, o que significa desde projetar e construir um barco adequado para o desafio quanto treinar diariamente, conciliando isso com suas atividades rotineiras de pais e esposos. É arrepiante acompanhar a saga, torcer por eles  à medida que entendemos a medida do desafio… e aprender muito com toda a jornada. Belíssimo.

Em seguida é possível sentir a adrenalina nesta descida alucinada de bike feita por Dan Atherton.

Ou se emocionar com a história da montanhista que encontrou uma maneira de conciliar a maternidade com a sua paixão pelo Alaska.

Ver o divertido – e feminista – curta sobre a presença feminina cada vez mais forte nos esportes de aventura, ao som de Cake.

E teve também o belo documentário brasileiro Sangue Latino, que narra a história da abertura de uma trilha para escalada em rocha na Bahia, por um grupo de amigos, que também é bela ao demonstrar o trabalho em equipe e a busca por um objetivo comum. Uma pena que não encontrei o vídeo.

O festival teve mais uma sessão no domingo, que eu perdi. Mas a programação está aqui e vale a pena fazer como fiz para escrever este artigo, fuçar no Youtube / internet pelos títulos e conferir. A galera do esporte de aventura está de parabéns.

Versos do dia: Vim que Venha (Karnak)

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Quem tem vir que venha, quem tem que ir que vá


Por baixo da simplicidade desta canção do Karnak, pode vir um verniz de lirismo. Se pararmos para tentar levar a sério essa pérola musical e seu refrão, esconde-se ai uma interessante lição.

O conceito chave é a necessidade ou obrigação do movimento. E movimento pode ser o caminhar em direção ao que queremos, ao que precisamos, ou ao que buscamos durante a nossa existência.

Vejam, se eu TENHO que ir, então que eu VÁ. E se eu TENHO que vir, que eu VENHA.

Não há sentido em ficar parado, com a força do verbo “ter” que carrega em si um senso de necessidade, de obrigação, ou de desejo irrefreável. Não tenho porque adiar ou postergar este ir ou vir. Ele é inevitável, é inexorável. Se tenho que ir, vou. Se tenho que vir, venho. Então que eu vá. Então que eu venha.

Na verdade, a partir do momento em que eu entendo isso, tenho que tratar é de chegar logo lá ou cá e aguardar então pelos sabores dos próximos movimentos. A vida é movimento. Saciar o desejo, a obrigação ou a necessidade é, então, viver. Adiar ou postergar, por consequência, é morrer. E ao morrer, posso nunca chegar lá ou cá e, desta forma, nunca sentir todos os sabores possíveis. Se tem que vir, que venha.

Há ainda o caso, não explorado na canção, em que eu não TENHO que ir e nem que vir… e ao não ter, pode faltar motivação e há a imobilidade, a ausência do movimento. Se eu não tenho que ir e nem que vir, então eu FICO. Ficar não é algo terrível. Só será, caso eu tenha que ir ou que vir. Mas se ficar for confortável, agradável e cheio de vida, então quem tem que ficar, que fique.

Dia Internacional do Rock

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Parabéns rockeiros e parabéns rock’n’roll.

É só mais uma data, mas não custa aproveitá-la, já que ela existe, para deixar registrada a importância desta forma de expressão musical e artística e a sua importância para mim.

Eu escolhi Break on Through, dos Doors, pois para mim é um bom símbolo do que a música é capaz de fazer, de levar para o outro lado, em que você fica à flor da pele, em que sentimentos vem e vão descontroladamente, em que rimos ou choramos, em que pulamos, em que nos envolvemos. A música é poderosa e deleitar-se apenas ouvindo, curtindo, cantando junto, é especial.

Música é feita para se ouvir. Claro que faz sentido deixá-la tocando de fundo em casa ou numa festa, ouvir despretensiosamente enquanto estamos no carro e assim por diante, mas nada é igual à experiência de apenas ouvir, com atenção, dedicar-se a ela, apreciar as nuances, os detalhes.

A seção Versos do Dia deixa clara a minha preferência por canções. Eu gosto das letras, trato-as como poesia. E o rock é terreiro farto para essa expressão. Morrison, Lennon, Dylan, Russo, Raulzito e Cazuza e tantos, tantos outros que preferiram transgredir e agredir usando o rock como canal e sua poesia como mensagem. O rock é transgressão e é estilo, mas também é filosofia e conteúdo. Mesmo o punk rock. Mesmo o heavy metal. Mesmo as milhares de divisões e subdivisões com que adoramos catalogar a arte, para torná-la mais vendável e facilitar que encontre e forme seus nichos.

Mas nada disso é necessário. O que é necessário são três acordes mal tocados, boas ideias sendo repetidas, de preferência gritadas e muita distorção. Ou a progressão rosa e suas óperas muradas, ou ver pedras rolando em direção aos besouros, abrir portas para tocar o céu, pegar carona em um zeppelin cheio de mutantes, perguntar quem é e descobrir que é a rainha, conhecer engenheiros que se alistaram na legião estrangeira em busca da ira! que não pode ser encontrada em nenhum de nós. O sistema é fodão e o rock é minha musa!

Adoro a Kiss FM, presente que a minha esposa me deu, e mais ainda o seu bordão: “Não deixe o rock sair de você”. É isso, a gente não pode deixar isso acontecer. Amanhã eu vou ter quarenta. Mas o rock tem que continuar comigo.

Parabéns, bom e velho rock’n’roll.

Momentos de decisão

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O ditado diz que cada escolha é uma renúncia, mas não há aqui precisão matemática. Não se trata, na maioria dos casos, de uma relação um para um. Para cada escolha, várias renúncias. Cada escolha também esconde atrás de si várias outras.

Há situações na vida em que temos que tomar uma decisão e esta decisão tem um impacto no nosso futuro e também no de outras pessoas. Decidir se casar ou se separar, decidir encarar ou não uma nova oportunidade profissional ou de carreira, decidir estudar e praticar algo que se quer muito fazer mas que nunca se encaixa tempo na rotina para efetivamente fazer.

Eu já tive que tomar decisões de todos estes tipos e muitas outras de vários outros tipos. Estas decisões que listei acima tem uma característica, você tem tempo para pensar a respeito, tempo para medir as consequências, tempo para planejar como e quando se aventurar. Mas não existe simulação perfeita. Por mais tempo que a gente tenha, nunca saberemos efetivamente o que vai acontecer depois do sim ou do não para a pergunta “vai ou não vai”?

Neste ponto é até interessante pensar nas decisões em que não há este tempo para decidir. O carro entra na pista contrária e vem na nossa direção. Eu freio? Eu viro o volante? Eu acelero? A decisão é instintiva e, quando analisada em retrospectiva, em geral nos vemos pensando que deveríamos ter feito isto ou aquilo. As decisões no improviso, na intuição, abruptas, podem não ser as melhores e por isso é importante trabalharmos, constantemente, nossos instintos e nossas certezas. Eu acredito que estarmos sintonizados com quem somos facilita as tomadas de decisão, diminuindo o tempo necessário para refletir e também aumentando as chances de acerto nestas decisões de momento, em que planejamentos e reflexões delongadas não são possíveis.

Porém, o mais importante, a meu ver, é decidirmos baseado em tudo isto (crenças, análises, reflexões, perspectivas, instinto e intuição), mas olharmos sempre adiante. Eu sou contra arrependimentos ou amarguras por decisões ou atos passados. Sou adepto do “carpe diem” no que diz respeito a saber que o passado ensina, mas não deve aprisionar. O futuro é cheio de promessas e conquistas, que dependem das ações e decisões diárias. Só há presente e ter consciência disso, vivendo sempre o dia de hoje, é uma das decisões mais importantes que se pode tomar. Ela muda tudo e dá um poder infinito para que a gente possa decidir reescrever nossa história agora, se assim quisermos. E reescrever pode ser realmente abrir uma nova página, em branco, e começar a viver de outra forma, uma nova história. Obviamente não nos desapegamos de quem somos ou do que já vivemos, mas quando vemos as coisas de forma diferente e acreditamos em outros caminhos, é possível vestir uma nova roupa e encarar este baile de gala que nos aguarda.

Você tem fogo?

This is the water, and this is the well
Drink full, and descend
The horse is the white of the eyes and dark within

Versos do Dia: Pursuit of Happiness (Kid Cudi / Lissie)

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Versão original da canção de Kid Cudi

If I fall if I die
Know I lived it to the fullest
If I fall if I die
Know I lived and missed some bullets
I’m on the pursuit of happiness and I know
Everything that’s shine ain’t always gonna be gold (hey)
I’ll be fine once I get it, get it in, I’ll be good

Versão de Lissie

Versão de Lissie com Kid Cudi

PS: Valeu Teddyto pela dica

Cartolas e o novo futebol brasileiro

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O fascínio que o futebol exerce em mim passa, obviamente, pela paixão inexplicável por um clube. Sim, eu sou um palmeirense antes de ser um brasileiro. E há por ai uma multidão de torcedores do Flamengo, do Corinthians, do Santos, do Vasco e do São Paulo, isso para ficar apenas nos times do eixo Rio-São Paulo. Muitos são os que torcem apenas de quatro em quatro anos e pelas cores verde-e-amarela da nossa Seleção de futebol. Estes não se envolvem, semanalmente, diariamente até, com os destinos dos nossos clubes. São torcedores ocasionais.

Para esses que torcem, que gritam, que vibram, que cantam, que celebram as vitórias, que amargam empates e que choram derrotas, houveram várias grandes transformações nas últimas décadas e que afetaram, para pior, tanto o futebol jogado no Brasil quanto como ele é visto por nós, os torcedores.

Primeiro, foi o esvaziamento dos craques que ocorre desde meados dos anos 1990, desde o advento da Lei Pelé e do fim da lei do passe, bem como do fortalecimento econômico dos grandes campeonatos europeus (La Liga espanhola, Premier League inglesa e a Bundesliga alemã, juntamente com o Calcio italiano). Com isso, aos poucos e de forma ainda mais acentuada nesta década, o nível técnico do futebol praticado no Brasil caiu muito. Hoje perdemos talentos não só para o primeiro nível europeu, mas também para centros menores e para a Ásia. Craque jogando aqui só nos seus primeiros anos profissionais ou nos últimos.

Muito disso não é devido só à modernização do futebol ocorrida fora do Brasil – hoje o campeonato de soccer norte-americano já leva mais gente aos estádios do que aqui no “país do futebol” – mas também à não-modernização que se dá aqui, com um modelo ultrapassado, dirigentes (ou cartolas) amadores, clubes tratados como posses e com planejamentos equivocados, trocas constantes de técnicos ultrapassados e que não acompanharam a revolução ocorrida no esporte – com raras exceções, como o alienígena Tite. E as dívidas malucas que enfraquecem ainda mais o poder de direcionar soluções dos clubes.

Para completar e não se eximir de culpa, o torcedor também piorou. Antes, os estádios eram mais cheios e o torcedor, apaixonado, torcia pelo seu time. Xingava também, chorava também, mas em geral apoiava e amava incondicionalmente. E não sabia nome de dirigente, não ligava tanto para a renda e, principalmente, não se preocupava tanto com as estatísticas do jogo. Era algo mais visceral e mais autêntico.

Hoje temos arenas modernas e preços de ingressos condizentes com a Europa – sem entregar a mesma qualidade de espetáculo. Com isso, temos também arenas vazias – ou no máximo, meio cheias. São raros os jogos que esgotam os ingressos. Com isso, seleciona-se o público pelo poder econômico – o que causa um embranquecimento elitizado, o que transforma o palco dos jogos em um ambiente muito mais frio do que antes, em que o time só é apoiado nas vitórias e em apresentações muito convincentes. Não há mais torcedores, mas clientes. Paguei para ver ganhar e jogar bem, se não for isso que me entregam, quero ir ao Procom. Esse é o raciocínio do novo torcedor dos estádios. O torcedor, aquele de verdade, não morreu… apenas passou a ter que acompanhar o time a distância, na TV ou nos bares.

Este novo torcedor tem, nos últimos anos, uma nova mania – e novamente, não me eximo da culpa. Um fantasy game divertido, criado pela Rede Globo (que é parte do problema no nosso futebol), chamado Cartola FC. A ideia é que você é dono de um time, tem um determinado investimento inicial e com ele escala 11 atletas e 1 treinador. A cada rodada, o time rende conforme o que os escalados fazem efetivamente em campo. Gols, defesas, passes errados, faltas cometidas e recebidas, assistências para gols, cartões amarelos e vermelhos, tudo é computado segundo um scout estabelecido pelo jogo e isso define a pontuação do jogador e também se ele se valoriza ou se desvaloriza. Simples assim. Mas suficiente para promover bizarrices, como um palmeirense como eu montar um time no fantasy game (que, por sinal, se chama Esfarelado), que tenha no plantel jogadores do Corinthians (que, afinal, faz ótima campanha este ano). E, desta forma, ver-me torcendo por eles durante os jogos, para pontuar mais… e, para culminar, ser capaz de torcer por um gol feito pelo arquirrival ou por uma bola defendida. É, não dá. Quando chega-se a este nível, sabe-se que tudo mudou, está tudo do avesso.

Para o bem ou para o mal, em um mundo em que um palmeirense torce a favor do Corinthians, por qualquer motivo que seja, é sinal de que o futebol brasileiro encontrou uma forma sem precedentes de se deteriorar. E a prova é quando torcedores questionam o técnico por uma não-escalação ou um atleta do próprio time, por uma pontuação negativa, ainda que em campo ele tenha sido decisivo, mas as estatísticas frias não tenham “percebido”. Não se enganem, são os mesmos torcedores que aplaudem a bilheteria anunciada no estádio. Futebol é mais do que estatísticas, público e renda. É paixão e é dedicação daqueles que representam esta paixão, é simples assim, mas está em falta.